quinta-feira, 20 de maio de 2021

Suspiro - Parte 2

 


             Parte 2

            Naquele dia, que parecia pertencer a uma realidade paralela, eu toquei piano. Toquei de leve as teclas, lentamente, e ouvi a melodia doce. E então parei. Me levantei e fui até a janela. Não consigo me lembrar do que vi através dela. A paisagem do mundo antigo tinha sido praticamente esquecida. Víamos mídias que as mostravam em nossos dispositivos, quando estávamos estudando algum assunto ou por mera curiosidade. Mas não havia uma única memória viva em mim sobre o que me cercava.

            Minhas memórias eram mais internas, tímidas, lentas e suaves. Pareciam quentes, mas eu não sentia nada do tipo ao lembrar. Ou sonhar. Mas eu me lembrava da sensação quentinha, quando segurei uma caneca e fui até a janela, carregando-a junto ao meu peito. Não sei para onde estava olhando até então, mas olhei para o que segurava. Pude ver minhas mãos novamente. E a caneca marrom, com o líquido preto e quente lá dentro.

            Observei, como se estivesse alucinando, a fumacinha que saía da bebida. O seu movimento em câmera lenta, assim como o mundo ao meu redor. O cheiro era agradável. O toque também. Era quente e reconfortante. Levei a caneca aos meus lábios e quase queimei a língua. Mas então o sabor me invadiu.

            Não comíamos mais. Não precisávamos nos alimentar para sobreviver. Eu não sentia gosto de algo há anos. Mas senti naquele momento, ao recordar. Foi fantástico.

            Os seres humanos sempre viram mais significado na comida do que simplesmente sobrevivência. Comer ou beber algo significava, também, sentir prazer e se deliciar. Podia significar ainda mais. As pessoas comiam muito quando estavam ansiosas, e não comiam nada quando estavam tristes. Descontavam na comida todas as suas frustrações, como se ela fosse capaz de solucionar seus problemas. Não era. Mas amenizava um pouco os sentimentos conflitantes. As pessoas associavam sentimentos e emoções às comidas; uma despertava alegria, outra tédio, outra nojo e outra, até mesmo, paixão. E não parava por aí.   

            A comida possuía uma linguagem própria. Em algumas culturas, comer determinado alimento ou beber uma bebida específica, poderia significar mais do que simplesmente se alimentar. E a comida passou a ter um papel social: as pessoas convidavam umas às outras para comer, para que pudessem estar juntas. E, sentadas à mesa, faziam-se família, mesmo que não tivessem qualquer parentesco sanguíneo. A comida, sem dúvida, aproximava os seres humanos.

            Aquilo também se perdeu. Não comíamos mais. Não nos sentávamos em mesa para comer e beber, e compartilhar a vida. Não tínhamos desculpas para tentar conhecer melhor o próximo, nem para passarmos um tempinho juntos. E nem um refúgio, uma válvula de escape literalmente deliciosa para todos os nossos problemas. Tínhamos que resolvê-los, ao invés de encontrar distrações. E não sentíamos os gostos, não sabíamos o que harmonizava com o que e nem despertávamos e estimulávamos nossas sensações de forma tão prazerosa.

            Naquela lembrança, eu estava sozinho. Eu não compartilhava nada com ninguém. Mas uma certeza me preenchia: algum dia, em algum momento, eu teria alguém com quem dividir. E teria alguém me esperando chegar em casa.

            Eu ali, sozinho, saboreando o café quente e extremamente reconfortante. Olhando para algo que não conseguia lembrar. E bastou aquilo: um sabor, para despertar em mim uma nova Mudança. E tudo começou com um suspiro.

             Agora eu podia me lembrar de um dia sentir. Sentir o gosto das coisas e me encher de felicidade ou agonia por isso. De dividir, de compartilhar e de me aproximar de quem eu quisesse. As minhas opções eram inesgotáveis e eu nunca me cansava de uma comida, pois estava sempre comendo e bebendo coisas diferentes.

            Mas não deixava de beber um pouco de café a cada dia.    

            O café era meu sabor favorito. O sabor favorito do pianista, que tocava horas sem parar e depois aquecia suas mãos através da caneca, sentindo o líquido quente. E então bebia, saboreava, aproveitava os segundos.

            23:52

            E mesmo que eu resgatasse aquela memória, jamais poderia resgatar meus sentimentos. Senti-los de novo, idênticos àquela época. No momento, eu senti. E já foi. Agora, restavam palavras que tentavam transmitir sentimentos. Sensações vagas, restos de memória do que um dia existiu de fato. A Mudança já os havia atingido, e agora era impossível retornar. Como uma pessoa que corre, sempre olhando para frente, consciente de seu ritmo. Ela pode, sim, voltar ao ponto de partida. Mas não será mais o mesmo.


26 comentários:

  1. Adorei!
    Uma análise detalhada dos sentidos...
    Tão bom quanto a primeira parte...
    Ansioso pra ver o desfecho...

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, espero que você goste da parte final!

      Eliminar
  2. Na verdade já somos máquinas humanas... mas um futuro sem sentir o aroma é sabor do café é aterrorizante.

    ResponderEliminar
  3. Adorei! Senti tudo junto com o personagem. Até queimei a língua junto. Você consegue transmitir ao leitor as sensações de uma forma tão sutil que parece que é a gente que tá sentindo. Um 'suspiro' de texto. Adorei mesmo! Curiosa pelo final.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muitíssimo obrigada! Muito feliz com seu comentário.

      Eliminar
  4. Brilhante usar os afetos gerados através da comida como uma forma de destacar a vida na máquina.
    Parabéns!
    Helena.

    ResponderEliminar
  5. Adorei!
    Tua escrita carrega muito sentimento e desperta a curiosidade!
    Ansiosa pelo final!

    ResponderEliminar
  6. Adorei!
    Tua escrita carrega muito sentimento e desperta a curiosidade!
    Ansiosa pelo final!

    ResponderEliminar
  7. Incrível como essa segunda parte aprofundou a questão da memória abordada na parte 1. Inevitável me lembrar de Proust com essa passagem do café. Destaco também o detalhe do tempo marcado no relógio, que evidencia como o fluxo de memórias pode se dar em apenas um instante. Aguardo ansioso a parte 3!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Preciso dizer que amo seus comentários? Captou exatamente tudo que eu queria transmitir. Obrigada pelo comentário, me deixou muito feliz.

      Eliminar
  8. Amando, Bella!
    Incrível como é leve e ao mesmo tempo intenso e irresistivelmente envolvente!
    Ansiosa pelo final.
    Parabéns! Beijo!

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada! Espero que o final te transmita o mesmo e você goste bastante!

      Eliminar
  9. Algo que talvez tenha me chamado mais a atenção, o fato que o texto apresenta a eternidade, abordada, em um tempo tão pequeno, na primeira parte ele olha no relógio 23:51 e na segunda parte 23:52, mas a memoria como tempo infinito e imortal são tratadas em apenas 1 segundo. Mostrando como o lado racional e pratico, o lado 1+1=2 é simples, mas o lado sentimental... as memorias vem trazendo um eternidade de lembranças e sentimentos, em apenas segundos. Parabéns pela sensibilidade Bella.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada pelo seu comentário, fiquei muito feliz com suas palavras! Me sinto muito bem em saber que estou transmitindo o que tinha imaginado... Espero que você goste do final!

      Eliminar
  10. Adorei. Tão reflexivo que faz qq um pensar que devemos dar valor até para as pequenas coisas, inclusive as mais corriqueiras. Ansiosa pelo desfecho.

    ResponderEliminar
    Respostas
    1. Muito obrigada, era exatamente o que eu queria transmitir!

      Eliminar
  11. Uaaau, eu amei a continuação ❤️ fiquei tão imersa na leitura que quando vi já tinha acabado haha tô ansiosa pra próxima parte!

    ResponderEliminar
  12. Achei incrível a crise de identidade e os lapsos (ou falta) de memória. Parabéns!

    ResponderEliminar
  13. Que escrita poética, cheia de sentidos que envolvem o leitor. Particularmente fiquei saudosa com o termo "fazer-se família". Saudades de sentar na varanda e ver seu sorriso.

    ResponderEliminar

Sponsor