quinta-feira, 27 de maio de 2021

Suspiro - Parte 3

 

Parte 3

            Depois que bebi o café, outra sensação me invadiu. Algo felpudo e quentinho passava por minha perna, fazendo cócegas. A visão a qual eu nunca tive acesso, que eu tinha através da janela, já não era mais meu foco. Olhei para o chão. E tive certeza: esse era o sonho mais agradável de todos.

            Uma criatura pequenina me encarava de volta, com seus olhos imensos e azuis. Nem mesmo o oceano, ou o céu, poderiam ser tão belos quanto aqueles olhos. Não poderiam sequer se comparar. O azul mais puro, mais brilhante e mais envolvente, que amolecia meu coração instantaneamente. Observei o seu rostinho com afeição. O narizinho rosado, os bigodes compridos, a boca já se abrindo para emitir um miado.

            — Gatinha! – exclamei no sonho, e foi a primeira vez que ouvi a minha própria voz.

            Parecia distante, baixa, ecoando... Eu não a reconhecia. E então a criaturinha, cujo nome era Gatinha, se enrolou mais uma vez na minha perna, miando mais alto. Ela era branca e peluda, com as patinhas cor-de-rosa e os olhos azuis. Suas cores me invadiam, assim como a sensação de seu pelo contra a minha pele. Me abaixei, até ficar da sua altura, e ela logo pulou no meu colo, ronronando.

            Seu nome não era dos mais criativos. Não conseguia me lembrar por que um dia pensei que seria genial nomear uma gata pequena como Gatinha. Ela merecia um nome melhor; mas pelo menos tinha um nome. Eu tinha um também, nessa época. Hugo. Agora ninguém me chamava pelo nome. Porque ninguém precisava de nomes.

            Eu era alguém. Um dia fui alguém. Mas eu mudei.

            Gatinha era minha companheira. Mas não víamos mais animais ao nosso redor. Nosso mundo era completamente hostil a animais, selvagens ou domesticados. Víamos fotos, vídeos, chegávamos a interagir com animais-máquinas, mas nenhum deles se parecia com Gatinha. Eles eram programados para agir como animais, mas não eram animais. Eram, portanto, uma ilusão.

            Talvez nós, homens, fossemos também assim. Cópias de seres humanos. Consciências humanas aprisionadas em corpos falsos. Mas nada havia a ser feito. O ponto de partida já não era mais o mesmo. Se voltássemos ao que um dia fomos, não seríamos mais seres humanos. Acho que já não éramos mais, mesmo agora.

            Podemos chamar as coisas como quisermos. Mas quando elas mudam, já não são mais as mesmas. E Gatinha, que poderia se chamar qualquer outro nome, era única no mundo. Eu sabia que, se colocassem um gato com mesma aparência na minha frente, eu não seria capaz de confundir. Porque cada criatura em nosso universo é única. E reconhecê-la era fácil: o que fazia Gatinha ser diferente de qualquer gato de rua, era o que eu sentia por ela, e ela por mim. Nossa relação nos construía.

            Eu sentia falta dos animais. Da família de uma espécie diferente. E sentia falta, principalmente, de ser o lar de alguém. Coisas que nunca foram, nem nunca seriam necessárias. Mas que eram diferenciais.

            Olhei pelo vidro e a noite parecia a mesma. O silêncio, que sempre foi meu companheiro, agora era excruciante. Não havia nenhum tipo de som. As máquinas eram silenciosas e nós, homens, mais ainda. Nem mesmo a natureza ousava ser barulhenta: não havia som de vento ou qualquer outra manifestação de que as coisas estavam vivas. Estavam mudando. Em constante transformação, o mundo girava. Mas a Mudança era silenciosa e implacável. Impiedosa. Sua maior crueldade era agir em silêncio, sem fazer alarde, até que nos acostumávamos com ela. Não notávamos sua presença ou sua ação. E um dia, soltávamos um suspiro. E então a força gravitacional do mundo parava de funcionar. E ele desabava, de uma só vez, em nossas cabeças.

            23:53

            Não adiantava o quanto eu olhasse para fora, não iria amanhecer. A noite estava longe de acabar. Parecia ter se passado, pelo menos, algumas horas desde meu primeiro sonho acordado. Talvez alguns dias, ou mesmo uma semana? Foram tantos sentimentos, tantas reflexões, tantas sensações e tantas, mas tantas dúvidas. Mas não. Só se passaram três minutos.

            O tempo se arrasta quando se tem a eternidade. O tempo vira algo abstrato, confuso e, quem sabe, desnecessário?

            Perdido nas minhas lembranças, eu já não sabia o que havia acontecido primeiro: o café, a Gatinha, o piano? Ou o contrário? Ou quem sabe uma ordem completamente diferente? Eu não poderia saber, ao certo, quando tudo aconteceu. Ou se aconteceu mesmo assim. As lembranças não são lineares, mas idas e vindas constantes. E não são separadas, divididas, mas se misturam, se confundem e se tornam uma coisa só.

            Sonhei ou me lembrei? Inventei ou retornei ao passado?

            Aquilo nunca havia me acontecido. Eu nunca questionei nada, nunca me perguntei como seria retornar ao que um dia já tivemos. Porque a nossa ideia era de que a caminhada deveria ser sempre à frente. Quem foi que disse que não podemos, de vez em quando, andar para trás? E quem disse que o futuro seria mais brilhante, mais promissor e mais feliz, quando algumas das respostas estão no passado?

            Eu queria voltar?

            Não. Porque já mudei. E se voltasse, já não seria mais o mesmo. E mudaria de novo. Eu não era diferente, não era especial. Eu mudava, porque o que fazia com que eu fosse quem realmente era, era isso: a minha capacidade de mudar. Eu me transformava a cada situação, a cada momento, a cada segundo! E eu não tinha escolha.

            Nenhum de nós tem.

            No dia seguinte, voltaria a viver normalmente. Não deixaria de me movimentar. Mas ia sentir saudades.

            Sei que, um dia, bastou bem pouco para que o mundo girasse mais rápido. Foi uma fala, uma ação, uma escolha. Um sopro de vento. Lá fora, as luzes brilhavam com mais força, num silêncio absoluto. Era tudo o que eu conhecia. A eternidade, que se tingia de branco.

            23:54

            Os sonhos acabaram. Meu momento também já passou. Talvez nunca volte. Não estou com medo do que o futuro nos reserva. Nem medo de me esquecer de tudo, de quem sou ou até mesmo do nome que um dia tive. Não estou com medo de fazer escolhas, de optar pelo que acho melhor para mim, ou mesmo para a humanidade.

            Talvez, não sejamos nós os culpados por caminhar sempre para frente, sem olhar para trás. Talvez, aquele seja o único caminho possível. Avançar, avançar, avançar.

            Um último suspiro nunca viria. Mas um pouco da vida em mim escapava a cada lembrança, ou sonho. Viver para sempre era também morrer eternamente.

            E assim, tudo mudou.

            Bastou um suspiro.


8 comentários:

  1. Adorei, bem poético e bem reflexivo. Acho que somos a soma de nossas experiências e nossas lembranças. Tirando isso não somos nada. Os minutinhos em que o protagonista lembrou, foram os únicos minutos em que ele foi humano de verdade. Desculpe se minha interpretação está errada rs.

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  2. Amei, Bella!
    Achei que você abordou os temas:tempo, mudança e escolha de uma forma tão singular que com certeza encantará todos os leitores!
    Parabéns e muito sucesso!
    Até soltei um SUSPIRO KKKK

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  3. Que texto lindo. Estou arrepiada. Somos muito mais do que a nossa armadura.
    Helena.

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  4. Filosófica ao extremo!
    Texto gostoso de ler!
    👏👏👏

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  5. O passado não pode ser sentença, é preciso olhar para ele com carinho e saber seguir em frente. Parabéns pela escrita. te admiro muito!

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  6. Sua escrita é muito poética, é linda!
    Adorei o desfecho da sua história, me encheu de sentimentos e reflexões!
    Parabéns pelo conto!
    Luna Halder

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  7. Sua escrita é tão suave que a gente flutua. Amei o final.

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  8. A última parte apresenta algumas respostas e levanta outros questionamentos.
    Parabéns pela maravilhosa escrita, Bella!
    Recomendo assistir ao filme A Ghost Story. Toda essa questão da Mudança e do fluxo do tempo e das memórias me lembrou bastante a obra, acho que você vai gostar :)

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