Benjamin
não conseguia deixar de pensar em Victoria. Como havia sido a morte da filha?
Por que ela sempre tinha um sorriso no rosto, mas um olhar sombrio? Também não
conseguia ignorar o fato de que Alexander nunca dizia muito ou se sentia à
vontade na presença dela.
O luto era algo muito particular. O
luto o havia transformado para sempre. E o luto havia, também, transformado
aquela mulher. Talvez ele só estivesse se metendo em um assunto que não era da
sua conta, mas ele era curioso por natureza. Sua curiosidade, aliada à
intuição, fazia com que ele descobrisse muitas coisas e solucionasse casos. E
ele não sabia até que ponto aquilo era verdade, mas Victoria tinha alguma
relação com o caso em questão. Não poderia perguntá-la diretamente detalhes da
morte da filha, ou qual era seu envolvimento com o incêndio que tirou a vida de
tantos.
A morte de Sofia, a filha de
Victoria, era coberta de incertezas. Ela tinha apenas dezesseis anos, quando
foi encontrada morta. Havia sido estrangulada. Não encontraram o culpado, ou,
pelo menos, não tinham pistas o suficiente para incriminar ninguém. A mãe,
Victoria, pareceu desistir de encontrar justiça. Ela sabia de algo. Benjamin
tinha certeza: ela sabia, mas por que fingiu não saber? Pessoas poderosas
estavam envolvidas naquele crime. Caso contrário, ele não teria sido tão
nebuloso.
Sofia havia sido encontrada com uma
caixinha de música na mão. Mas algo chamava ainda mais a atenção de Benjamin.
Algo que contrastava com a violência do assassinato. Sofia estava deitada. E,
ao seu redor, uma variedade de flores. Benjamin não sabia se ela havia mesmo
morrido ali, ou se a levaram depois da morte e a deitaram numa cama de flores,
num sono do qual ela nunca iria despertar. Sofia foi encontrada, morta, num
jardim.
Benjamin sentiu calafrios,
imaginando a cena da adolescente morta, cercada de flores. A morte, algo tão
temido, diante da beleza e delicadeza das flores. Talvez a morte não fosse
exatamente feia. Talvez fosse também bela e delicada. Não a morte em si. Não o
corpo sem vida. Mas o adeus. A beleza da despedida.
Ele fechou os olhos, tentando focar
naqueles pensamentos. Porque ela não estava bonita quando se foi. Nem
foi belo dizer adeus à pessoa que ele mais amou em toda a vida. Ela também
gostava de flores. Tinha perfume de flor. E ele se lembrava qual era o maior
sonho dela:
– Eu quero ver o oceano.
Ela nunca tinha visto o mar.
Benjamin vivia dizendo que a levaria em breve para um passeio na praia, mas
nunca tinha tempo. Vivia muito ocupado e negligenciava seus planos. Mas ela
nunca pareceu chateada de estar em segundo plano. Algo tão simples para muitos,
mas que ela nunca conheceu. A beleza do oceano.
Ele se lembrava de perguntá-la o que
era tão especial assim. Não entendia o motivo de seu sonho ser tão simples.
Simples como ela. Mas ela não se intimidava. Dizia que queria ouvir o som das
ondas. Sentir a água gelada contra a pele. E olhar para algo que aparentemente
não tinha fim.
Ela nunca pôde ver.
E a culpa era dele.
A culpa era dele, por nunca ter
percebido antes. Nunca ter percebido o sofrimento dela, a dor que ela carregava
silenciosamente. Era tão pesada que ela não pôde suportar mais. Naquela tarde,
ele chegou em casa e encontrou um bilhete.
Me desculpe por não suportar
mais. Estou indo para o lugar em que nos conhecemos, mas já não posso sentir
mais nada.
Ainda assim, eu amo você.
Adeus.
Íris.
Ele seguiu as
pistas, como um investigador. Já era noite. Correu o máximo que pôde e chegou
ao rio em que os dois se viram pela primeira vez. Eles se encontraram na ponte,
na mesma em que ela estava naquela noite, parada como uma estátua. Suas últimas
palavras foram:
– Isso não é o oceano.
E então pulou. Ela não sabia nadar.
Benjamin poderia pular atrás dela e salvá-la, mas hesitou. Foi o seu maior
erro. Ele poderia ter salvado sua esposa se tivesse sido mais rápido. Mas não
foi. E sabia que era culpado porque, no fundo, sabia que sua hesitação não foi
simplesmente um choque. Foi consciente. Ela queria aquilo. Ele não podia tirar
dela seu último desejo.
Ela queria morrer. E ele a deixou.
A culpa o perseguia. Se, pelo menos,
tivesse pensado diferente. Se tivesse sido egoísta, ela estaria com ele agora.
Talvez, estivessem felizes. Ele se lembrava da sensação da água entrando pelos
seus sapatos. De tirá-la do rio, já sem vida, e de ver a expressão no rosto
dela ao morrer. E de suas últimas palavras, o sonho nunca realizado.
Naquela noite, Benjamin chorou.
Depois de muito tempo, ele se permitiu libertar as emoções que sentia. Na manhã
seguinte, já recuperado, pelo menos visualmente, foi de encontro a Alexander.
– Por que você a matou? – foi sua
primeira pergunta. Não precisou contextualizar nada. Alexander sabia do que ele
estava falando.
– Eu a amava. Mas ela nunca me amou.
Ela ganhou aquela caixinha de música idiota do rapaz que gostava. E ela colocou
a música para tocar. Eu fui invadido por uma sensação que tenho medo de
pensar... Não consigo colocar em palavras, mas seria algo parecido com ódio.
Ira. Então eu senti minhas mãos ao redor do pescoço dela. Ela era pequena e
delicada. Eu senti... A vida dela indo embora aos poucos. Eu não vi nada
acontecer. Eu só... Ouvi aquela caixinha de música tocando ao fundo. Uma música
tão bonita, para uma cena tão horrenda. Eu nunca, por um segundo sequer,
esqueci a canção. Mas me esqueci do rosto dela...
– Ela tem um nome. Sofia.
Ela tem um nome. Íris.
Benjamin agora entendia qual a
relação de Alexander e Victoria. Ele havia assassinado a sua preciosa filha.
Ela tinha motivos de sobra para querer se vingar dele. Mas ainda assim, ele
estava surpreso. Por que ela tinha, então, feito o que fez? E por que Alexander
permanecia vivo, enquanto seus colegas haviam morrido de forma tão trágica?
Alexander acabou confirmando que
Victoria era quem ia ao colégio às vezes, e ficava o observando pela janela.
Também confirmou que ela estava na cena do crime, trancou as portas e colocou a
caixinha de música para tocar. Era óbvio que ele ficaria paralisado, já que era
a música que despertava o seu trauma de ter matado, com as próprias mãos, uma
jovem, em um momento de surto. Alexander sempre foi um rapaz tranquilo, mas
isso não o impediu de ter matado alguém. Os pais, muito ricos, ajudaram a
encobertar o crime. E Victoria, provavelmente já arquitetando seu plano de
vingança, decidiu não pressionar mais o assunto. Ela faria a justiça com as
próprias mãos.
Tudo fazia sentido e se encaixava
perfeitamente. No entanto, Benjamin ainda tinha muitas dúvidas em relação ao
comportamento dela. Não sabia por que, mas queria entendê-la.
– Por que a surpresa? – ela disse
com frieza quando foi interrogada por ele. – É por que eu não parecia ser capaz
de tal crime? Porque eu sei sorrir, manter uma conversa e me comportar em
sociedade? Aquele menino também fazia tudo isso. Vivia, aos olhos dos outros,
como se nada tivesse acontecido. Mas a gente nunca sabe o que está por dentro,
escondido. Nem mesmo um investigador esperto como o senhor é capaz de entrar na
cabeça das pessoas. O senhor nunca vai entender como me sinto. Como me senti
quando encontrei minha filha morta, com a caixinha de música nas mãos. Eu ouvi
aquela música todos os dias e todas as noites, enquanto buscava uma maneira de
aliviar minha dor. E a conclusão a que cheguei foi que a morte seria pouco para
ele. Ele precisava entender o que era perder alguém. Mas muito mais do que
isso... Ele precisava entender o que é carregar o peso de se estar vivo. De ser
o que resta.
Benjamin conhecia bem aquele peso.
Agora, Alexander também. Victoria, igualmente. Todos eles tinham algo em comum:
a culpa. E os três estavam longe de conseguirem se libertar. Victoria e
Alexander iriam pagar pelos seus crimes. Mas não havia punição mais severa do
que se arrepender de estar vivo.
Benjamin concluiu mais um caso,
aliviado. Aquele caso o fez pensar e desenterrar a própria dor. Mas logo em
seguida, outro caso surgiria e ele ocuparia a mente com a dor dos outros, com a
morte alheia, e seguiria em frente. Porque sua vida se resumia em encontrar
distrações e fugas.
Ser o que resta estava longe de ser
algo a se comemorar. Aquilo podia ser chamado de vida?
Não era o oceano.
Era só um rio qualquer.

Bella do Céu!!!!!!
ResponderEliminarQue final hein?
Sensacional!
Amei! Parabéns minha querida sobrinha 😍😘😘😘😘😘😘
Uau...vc podia fazer um livro baseado nesse conto. Está sensacional, parabéns!!!
ResponderEliminarGostei muito das reflexões dessa parte final. construção do personagem protagonista está muito bem realizada. Parabéns!
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