Naquele dia, que parecia pertencer a
uma realidade paralela, eu toquei piano. Toquei de leve as teclas, lentamente,
e ouvi a melodia doce. E então parei. Me levantei e fui até a janela. Não
consigo me lembrar do que vi através dela. A paisagem do mundo antigo tinha
sido praticamente esquecida. Víamos mídias que as mostravam em nossos
dispositivos, quando estávamos estudando algum assunto ou por mera curiosidade.
Mas não havia uma única memória viva em mim sobre o que me cercava.
Minhas memórias eram mais internas,
tímidas, lentas e suaves. Pareciam quentes, mas eu não sentia nada do tipo ao
lembrar. Ou sonhar. Mas eu me lembrava da sensação quentinha, quando segurei
uma caneca e fui até a janela, carregando-a junto ao meu peito. Não sei para
onde estava olhando até então, mas olhei para o que segurava. Pude ver minhas
mãos novamente. E a caneca marrom, com o líquido preto e quente lá dentro.
Observei, como se estivesse
alucinando, a fumacinha que saía da bebida. O seu movimento em câmera lenta,
assim como o mundo ao meu redor. O cheiro era agradável. O toque também. Era
quente e reconfortante. Levei a caneca aos meus lábios e quase queimei a
língua. Mas então o sabor me invadiu.
Não comíamos mais. Não precisávamos
nos alimentar para sobreviver. Eu não sentia gosto de algo há anos. Mas senti
naquele momento, ao recordar. Foi fantástico.
Os seres humanos sempre viram mais
significado na comida do que simplesmente sobrevivência. Comer ou beber algo
significava, também, sentir prazer e se deliciar. Podia significar ainda mais.
As pessoas comiam muito quando estavam ansiosas, e não comiam nada quando
estavam tristes. Descontavam na comida todas as suas frustrações, como se ela
fosse capaz de solucionar seus problemas. Não era. Mas amenizava um pouco os
sentimentos conflitantes. As pessoas associavam sentimentos e emoções às
comidas; uma despertava alegria, outra tédio, outra nojo e outra, até mesmo,
paixão. E não parava por aí.
A comida possuía uma linguagem
própria. Em algumas culturas, comer determinado alimento ou beber uma bebida
específica, poderia significar mais do que simplesmente se alimentar. E a
comida passou a ter um papel social: as pessoas convidavam umas às outras para
comer, para que pudessem estar juntas. E, sentadas à mesa, faziam-se família,
mesmo que não tivessem qualquer parentesco sanguíneo. A comida, sem dúvida,
aproximava os seres humanos.
Aquilo também se perdeu. Não
comíamos mais. Não nos sentávamos em mesa para comer e beber, e compartilhar a
vida. Não tínhamos desculpas para tentar conhecer melhor o próximo, nem para
passarmos um tempinho juntos. E nem um refúgio, uma válvula de escape
literalmente deliciosa para todos os nossos problemas. Tínhamos que
resolvê-los, ao invés de encontrar distrações. E não sentíamos os gostos, não
sabíamos o que harmonizava com o que e nem despertávamos e estimulávamos nossas
sensações de forma tão prazerosa.
Naquela lembrança, eu estava
sozinho. Eu não compartilhava nada com ninguém. Mas uma certeza me preenchia:
algum dia, em algum momento, eu teria alguém com quem dividir. E teria alguém
me esperando chegar em casa.
Eu ali, sozinho, saboreando o café
quente e extremamente reconfortante. Olhando para algo que não conseguia
lembrar. E bastou aquilo: um sabor, para despertar em mim uma nova Mudança. E
tudo começou com um suspiro.
Agora eu podia me lembrar de um dia sentir.
Sentir o gosto das coisas e me encher de felicidade ou agonia por isso. De
dividir, de compartilhar e de me aproximar de quem eu quisesse. As minhas
opções eram inesgotáveis e eu nunca me cansava de uma comida, pois estava
sempre comendo e bebendo coisas diferentes.
Mas não deixava de beber um pouco de
café a cada dia.
O café era meu sabor favorito. O
sabor favorito do pianista, que tocava horas sem parar e depois aquecia suas
mãos através da caneca, sentindo o líquido quente. E então bebia, saboreava,
aproveitava os segundos.
23:52
E mesmo que eu resgatasse aquela
memória, jamais poderia resgatar meus sentimentos. Senti-los de novo, idênticos
àquela época. No momento, eu senti. E já foi. Agora, restavam palavras que
tentavam transmitir sentimentos. Sensações vagas, restos de memória do que um
dia existiu de fato. A Mudança já os havia atingido, e agora era impossível
retornar. Como uma pessoa que corre, sempre olhando para frente, consciente de
seu ritmo. Ela pode, sim, voltar ao ponto de partida. Mas não será mais o
mesmo.

Adorei!
ResponderEliminarUma análise detalhada dos sentidos...
Tão bom quanto a primeira parte...
Ansioso pra ver o desfecho...
Muito obrigada, espero que você goste da parte final!
EliminarNa verdade já somos máquinas humanas... mas um futuro sem sentir o aroma é sabor do café é aterrorizante.
ResponderEliminarCom certeza! Concordo plenamente.
EliminarAdorei! Senti tudo junto com o personagem. Até queimei a língua junto. Você consegue transmitir ao leitor as sensações de uma forma tão sutil que parece que é a gente que tá sentindo. Um 'suspiro' de texto. Adorei mesmo! Curiosa pelo final.
ResponderEliminarMuitíssimo obrigada! Muito feliz com seu comentário.
EliminarBrilhante usar os afetos gerados através da comida como uma forma de destacar a vida na máquina.
ResponderEliminarParabéns!
Helena.
Muito obrigada, fico feliz que tenha gostado!
EliminarAdorei!
ResponderEliminarTua escrita carrega muito sentimento e desperta a curiosidade!
Ansiosa pelo final!
Muito obrigada! Espero que goste do final.
EliminarAdorei!
ResponderEliminarTua escrita carrega muito sentimento e desperta a curiosidade!
Ansiosa pelo final!
Incrível como essa segunda parte aprofundou a questão da memória abordada na parte 1. Inevitável me lembrar de Proust com essa passagem do café. Destaco também o detalhe do tempo marcado no relógio, que evidencia como o fluxo de memórias pode se dar em apenas um instante. Aguardo ansioso a parte 3!
ResponderEliminarPreciso dizer que amo seus comentários? Captou exatamente tudo que eu queria transmitir. Obrigada pelo comentário, me deixou muito feliz.
EliminarAmando, Bella!
ResponderEliminarIncrível como é leve e ao mesmo tempo intenso e irresistivelmente envolvente!
Ansiosa pelo final.
Parabéns! Beijo!
Muito obrigada! Espero que o final te transmita o mesmo e você goste bastante!
EliminarAlgo que talvez tenha me chamado mais a atenção, o fato que o texto apresenta a eternidade, abordada, em um tempo tão pequeno, na primeira parte ele olha no relógio 23:51 e na segunda parte 23:52, mas a memoria como tempo infinito e imortal são tratadas em apenas 1 segundo. Mostrando como o lado racional e pratico, o lado 1+1=2 é simples, mas o lado sentimental... as memorias vem trazendo um eternidade de lembranças e sentimentos, em apenas segundos. Parabéns pela sensibilidade Bella.
ResponderEliminarMuito obrigada pelo seu comentário, fiquei muito feliz com suas palavras! Me sinto muito bem em saber que estou transmitindo o que tinha imaginado... Espero que você goste do final!
EliminarAdorei. Tão reflexivo que faz qq um pensar que devemos dar valor até para as pequenas coisas, inclusive as mais corriqueiras. Ansiosa pelo desfecho.
ResponderEliminarMuito obrigada, era exatamente o que eu queria transmitir!
EliminarUaaau, eu amei a continuação ❤️ fiquei tão imersa na leitura que quando vi já tinha acabado haha tô ansiosa pra próxima parte!
ResponderEliminarhahaha muito obrigadaaaa, fico muito feliz!
EliminarPoético! Parabéns
ResponderEliminarMuito obrigada!
EliminarAchei incrível a crise de identidade e os lapsos (ou falta) de memória. Parabéns!
ResponderEliminarMuito obrigada! Fico feliz...
EliminarQue escrita poética, cheia de sentidos que envolvem o leitor. Particularmente fiquei saudosa com o termo "fazer-se família". Saudades de sentar na varanda e ver seu sorriso.
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