quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O que resta - Parte 2

 


               – Quem estava com você na escola?

            Benjamin estava com Alexander novamente. No último encontro com o rapaz, ele continuou dando respostas confusas e se esquivando. Por algum motivo, ele parecia profundamente amedrontado e, quando questionado sobre a pessoa que o acompanhava, ele entrava em um estado de pânico, chorando, gritando e até mesmo se tornando agressivo. Benjamin notou a maneira com que ele nunca olhava na direção de Victoria, como se não confiasse nela, mas apenas em Benjamin. Então decidiu encontrar-se com ele sozinho, na esperança de poder ouvi-lo falar mais livremente, sem constrangimentos.

            – Eu não sei.

            Benjamin refez a pergunta com um tom mais sério. Estava disposto a perguntar pela última vez, pois já havia visto que perguntar aquilo não era eficiente. Ele não iria responder tão facilmente. Dada a maneira assustada com que ele agia, ele podia estar sendo ameaçado. Estava com medo. Benjamin continuou tentando convencê-lo.

            – Eu sei que sua vida pode estar em risco. Mas você pode ser acusado de um crime que não cometeu. Não preciso de um nome agora. Você pode me dizer se era alguém que você conhecia?

            – Eu não conheço ela. Não sei quem é.

            Ela. Então, era uma pessoa do sexo feminino. Benjamin não deu sinais de ter percebido, e continuou sua abordagem:

            – Por que ela... Essa pessoa ligou a música?

            – Para me fazer sofrer. Para me fazer ouvir os gritos. Para que eu não fugisse.

            – E por que uma caixinha de música trouxe a você tanto sofrimento?

            – Porque eu odeio aquela música. Ela me persegue... E eu odeio aquela música.

            Benjamin, um tempo depois, reuniu-se com Victoria para que pudessem discutir o que tinham descoberto. Victoria conversou com as famílias das vítimas, mas nada parecia incomum. Eles não tinham inimigos ou pessoas que pudessem atacá-los com uma motivação clara. Mas o que mais incomodava Victoria era a pressão que faziam para que descobrissem o que realmente havia acontecido. Eles estavam prosseguindo rapidamente com as investigações e não podiam tomar decisões precipitadas, mas as famílias eram ricas e de prestígio, por isso, eles estavam sendo pressionados de todos os lados. Tinham que descobrir logo a verdade, nem que precisassem arrancá-la de Alexander.

            Mas não era daquele jeito que Benjamin agia. Ele era calmo e paciente, gostava de fazer tudo no próprio ritmo e não deixar aberturas para erros, confusões ou ações impulsivas.

            – Alguém estava lá com Alexander. Os dois estavam do lado de fora do salão, e a pessoa que acompanhava provavelmente foi quem trancou as portas. E essa pessoa colocou uma caixinha de música para tocar, na intenção de paralisar e amedrontar Alexander, para que ele se tornasse incapaz de qualquer coisa. Ele já conhecia a música anteriormente, pois disse que a odiava e que ela o perseguia, por algum motivo. Então é provável que essa música se relacione com algum trauma que Alexander tinha, e que essa pessoa conhecia também. Não foi algo aleatório. E Alexander afirmou não conhecê-la, se referindo a esse alguém como “ela”, então podemos deduzir que se trata de uma mulher. Isso é tudo que temos até o momento. – Benjamin resumiu.

            – Existem muitas pontas soltas nessa história. Acho que ainda não conseguiremos chegar a nenhuma conclusão. – Victoria comentou.

            Os dois concordaram. Victoria se despediu dele, explicando que tinha compromissos importantes. Benjamin não se interessava nem um pouco pela vida pessoal dela, mas acabou perguntando, mais por educação:

            – Vai encontrar sua filha?

            A expressão de Victoria mudou completamente. Por um segundo, ele viu no rosto dela algo indecifrável, um brilho no olhar que parecia mágoa. Mas logo depois essa expressão desapareceu, dando lugar à mesma de sempre.

            – Não. Não creio que isso seja possível. – ela sorriu, mas parecia muito triste. – Minha filha não está mais entre nós.

            – Ah! – Benjamin exclamou, completamente sem jeito.

            Antes que ele pudesse expressar compaixão ou dizer “sinto muito”, ela foi embora. Ele não se importou, já que era por pura educação. Benjamin continuou revisando as informações que tinha, coçando a cabeça, tentando tirar dela alguma nova informação ou qualquer conclusão. Nada parecia se conectar.

            Ele andou pelas ruas, pensativo, analisando as expressões das pessoas que passavam por ele. Às vezes, recebia alguns olhares de volta. Mas na maior parte do tempo, as pessoas estavam preocupadas demais com suas próprias vidas e questões, que nem se davam conta de estarem sendo observadas. Benjamin caminhou por horas e viu cada vez menos pessoas. As ruas desapareceram e ele se viu cercado de árvores. Começava a anoitecer, mas ele não tinha medo algum. Não havia nada que temia. Não mais.

            Parou, por fim, em frente a um rio. Não se aproximou muito. O olhou como se estivesse vendo um fantasma. As sensações voltaram. O frio que invadia cada parte do seu corpo e que o fazia sentir arrepios intermináveis. A água gelada entrando no seu sapato. O som dos grilos ao longe, o gosto amargo na boca.

            E os olhos dela. A boca dela. A expressão em seu rosto ao morrer.

            Benjamin recobrou os sentidos. Quando percebeu, estava caminhando em direção ao rio. Ele não precisava ter o mesmo destino dela. Estava sendo irracional e, percebendo isso, afastou-se do rio e daquela força que o chamava. E naquela noite, novamente, ele não pôde dormir.

            – De onde você a conhece? – Benjamin perguntou.

            – De muitos lugares. Ela costumava nos visitar na escola algumas noites. Os rapazes ficavam assustados e ao mesmo tempo animados, todos grudados na janela. Ela só ficava lá embaixo, no jardim, olhando para cima. Parecia um fantasma. Mas, ao mesmo tempo, uma criatura divina.

            – Então ela conhecia bem a sua escola.

            – Ela conhece muitas coisas. Ela planejou isso por muito tempo.

            – E por que ela fez isso?

            E então Alexander chorava mais uma vez. Suas lágrimas não pareciam secar. Ele voltava a falar sobre a música, a melodia que o assombrava sempre que fechava os olhos.

            – Pode me dizer como era essa caixinha de música? – perguntou Benjamin, insistindo um pouco mais do que o normal.

            – Era uma caixinha comum, de madeira. Tinha uns desenhos... Uma flor. Eu sei qual era, porque estudamos isso numa aula sobre plantas e flores. Gérbera. Era uma gérbera.

            Benjamin foi de encontro a Victoria, pensativo. Não conseguia parar de pensar na última parte da conversa com Alexander. Antes de Benjamin ir embora, Alexander o chamou.

            – Eu não ligo se for declarado culpado. Eu sou culpado, mas de outro crime. Eu... Eu matei alguém.

            E então se recusou a falar mais. Benjamin insistiria no assunto e descobriria mais depois, mas aquilo era a informação de maior importância que ele conseguira até então. Victoria o esperava sentada num banco, usando um vestido escuro. Ela parecia muito misteriosa. Ele se sentou ao lado dela e os dois conversaram sobre as novas descobertas. Ela nunca compartilhava muita coisa com ele, mas era uma excelente ouvinte. Parecia inteligente, mas não gostava de demonstrar.

            Ao se despedir, Benjamin se lembrou de algo que queria dizer e se virou bruscamente, trombando em Victoria, que estava bem atrás dele.

            – Me perdoe. – ele disse, mas ela apenas perdeu um pouco o equilíbrio e derrubou a bolsa grande.

            De dentro da bolsa, um pequeno buquê caiu. As flores lembravam girassóis e logo Benjamin percebeu.

            – Vai a um encontro? – ele perguntou em tom descontraído, controlando as próprias emoções.

            – Não. São para minha filha. Irei visitá-la hoje.

            Benjamin assentiu e se despediu rapidamente. No caminho para casa, não podia parar de pensar nas várias teorias que surgiam em sua mente. Ele acreditava que coincidências não existiam. Passou a noite em claro revisando as informações. E então se lembrou dela, chegando em casa com um buquê de flores, falando que havia presenteado a si mesma. “Você é muito frio para dar flores”, ela dizia. E então explicou a ele como era o nome daquela flor e se empolgou, começando a explicar as características de várias flores diferentes. Ele ouviu aquele nome antes e suas características, mas, para ter certeza, pesquisou num livro se era realmente o que imaginava. Viu a imagem.

            As flores que Victoria estava levando para a visita à filha morta eram indiscutivelmente aquelas. Gérberas.

21 comentários:

  1. Bella...a história está pegando fogo kkkkkk

    Estou amando e curiosa para saber se a minha pista está certa 🤔

    Aguardando ansiosa! 😍😘😘😘😘

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    1. hahahaha fico feliz! Semana que vem o mistério será desvendado. Obrigada pelo apoio!

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  2. Eita, uma mulher? Por essa eu não esperava, tenho certeza que vou me surpreender com o final!

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    1. Semana que vem teremos muitas revelações, espero que te surpreenda mesmo!

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  3. Essas mulheres... Desde a suspeita até a Victória, todas interessantes. E flores, as flores falam tanto sobre quem as carrega. Muito bom.

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    1. Muito obrigada! As flores são elementos que quis destacar nesse conto... Que bom que gostou!

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  4. Bellzinha que super conto é esse? Cada semana um mistério. Parabéns. Rumo a última parte.

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    1. Muito obrigada!! Fico feliz que esteja gostando, espero que a última parte seja uma feche com chave de ouro!

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  5. Humm... Já estou desconfiando de alguém, mas acho que serei surpreendido... hehehehehe

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    1. Será? Pena que não posso falar muita coisa, sempre dou spoiler hhahahahaha

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  6. Caramba, agora fiquei intrigada com o lance das flores.

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    1. Fico feliz que tenha despertado curiosidade! Espero que goste do final.

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  7. Que intrigante...antes desconfiava de uma coisa, mas agora o conto está indo por outro caminho...ansiosa para o desfecho desse mistério.

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  8. Meu Deus, onde isso vai parar?
    Por via das dúvidas, vou jogar fora umas flores que tem aqui em casa. :P
    Mais uma parte excepcional! Vamos ver oq semana q vem nos reserva :D

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    1. hahahahaha olhando de forma diferente agora para as flores! Sim, espero que semana que vem todos se surpreendam!

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  9. Essas flores são minhas preferidas, tem muito amor envolvido. Mas quais os outros crimes de Benjamin.
    Ass. Srta. M

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    1. Eu também gosto muito, gosto do significado delas... Aguardo você na última parte!

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  10. Aguardando ansiosamente pela próxima postagem!

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  11. Nossa!! Não estava preparada para essa frase final! Incrível, Bella, como sempre!! Ansiosa demais para o restante!

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