Quando alguém se depara
com a morte, várias podem ser as reações e também as impressões deixadas. Para
ele, era uma coisa normal e rotineira. Deixou de ser especial há muito tempo.
Não havia choro que o tocasse. Nem imagem que o fizesse desejar não poder enxergar
mais. Não havia som que o perturbasse e tirasse sua concentração. Mas havia
algo com o qual ele nunca se acostumou. Os cheiros.
A morte não cheira bem. Naquele momento, principalmente,
ele tinha a certeza disso. O cheiro de corpos queimados era algo que ele não
poderia esquecer facilmente. Mesmo depois que chegasse em casa, provavelmente
ficaria esfregando o nariz, esperando que algum outro cheiro pudesse
substituí-lo. Aquilo o incomodava muito, mas ele não deixava que ficasse em seu
caminho. Afinal de contas, aquele era o trabalho dele.
– Benjamin. – uma voz feminina o chamou. – Eu estarei
encarregada, junto ao senhor, da investigação. Ouvi dizer que o senhor não
gosta de ajudantes. Mas eu realmente estou muito, muito curiosa.
Ela o encarava com um sorriso no rosto. Provavelmente não
havia ouvido falar sobre o quão sistemático ele era. Não gostava que se
referissem a ele de forma tão amigável e despreocupada. Ele era jovem e, por
isso, subestimado em seu trabalho. Tinha que passar por provas o tempo inteiro
e mostrar que era capaz, independente de sua idade. Sua insegurança em relação
a isso se escondia por detrás de uma arrogância que fazia com que as pessoas o
evitassem, especialmente depois de conhecê-lo um pouco mais.
– Não é necessário me chamar de senhor. – ele deu um
sorriso seco. – Afinal de contas, a senhora é provavelmente muito mais...
Experiente do que eu.
Ela abriu um sorriso largo. Era inteligente; sabia que
ele havia acabado de chamá-la de velha. Não era mentira. Ela não era mais uma
menina, mas uma mulher madura e experiente, embora a aparência às vezes a
fizesse parecer mais jovem do que era.
– Vamos nos dar bem, certamente. É praticamente
impossível me tirar do sério, sabe. Meu nome é Victoria. É um grande prazer.
Benjamin e Victoria andaram pela cena do crime,
observando atentamente todos os detalhes que poderiam captar no momento.
Tratava-se, claramente, de um incêndio. Mas não era um incêndio comum. Ali,
naquele antigo salão de festas, mais de cem rapazes acabaram morrendo, de forma
trágica e cruel. De imediato, a polícia soube que não se tratava de mais um
caso de acidente a se tratar. A primeira coisa que Benjamin notou foi a porta.
Muitos corpos estavam abandonados bem em frente a ela, como se buscassem
freneticamente sair. Era meio óbvio: ninguém quer ser queimado vivo. Mas o que
os impediu de simplesmente saírem correndo?
Era claro: a porta havia sido trancada. O local também
não era aleatório: o salão de festas era o cômodo mais isolado do prédio. Não
tinha janelas, apenas duas grandes portas, ambas trancadas.
A escola para rapazes ficava também consideravelmente
distante da área mais povoada da cidade. Perto, existiam apenas casarões e
mansões pertencentes a pessoas ricas e poderosas, que buscavam um pouco de privacidade
e preferiam viver afastados da correria e barulheira da cidade. Ao redor, muita
natureza. Os rapazes ali aprendiam de tudo, além das áreas de conhecimento mais
clássicas. Era a escola mais renomada da região, onde apenas garotos ricos
podiam estudar. As turmas englobavam várias idades diferentes, mas os infelizes
que acabaram se envolvendo na tragédia eram rapazes de 17 a 20 anos.
Essas eram as informações iniciais, as quais toda a
equipe tinha acesso. Benjamin voltou a olhar para os corpos jogados em frente à
porta e os imaginou tentando escapar. Não havia sido um acidente qualquer.
Alguém havia trancado a porta.
– Você não acha que foi um acidente. – Victoria concluiu,
ao olhar a expressão no rosto de Benjamin.
– Não posso achar nada. Preciso de certezas. E um fato é
que cem homens não morrem queimados sem ninguém reagir.
Victoria deu um sorriso, como se estivesse se lembrando
de algo nostálgico.
– Eu só me lembrei de algo. – ela disse, ao receber o
olhar questionador dele. – Minha filha adorava fazer questionamentos que
deixariam as pessoas encurraladas. Uma vez a peguei perguntando a um familiar:
“você preferiria morrer queimado ou afogado?”. Ela às vezes respondia as
próprias perguntas. Sabe qual foi a resposta dela para essa? “Eu preferiria
morrer queimada”. Se morresse queimada, seu corpo se tornaria irreconhecível.
Assim, ninguém teria que ver sua expressão ao morrer.
– Você fala um pouquinho demais. – Benjamin concluiu.
Benjamin e Victoria trabalharam juntos, seguindo as pistas
deixadas. Depois de um longo dia de trabalho, Benjamin retornou para casa,
sozinho. Vivia numa casa extremamente fria e vazia, sem decorações ou cores
vivas, toda em tons de cinza e branco. Cinza era sua cor preferida. Mas nem
sempre foi assim.
Houve um tempo em que Benjamin era uma pessoa
completamente diferente, e conseguia sorrir sem sarcasmo. Houve um tempo em que
ele vivia numa casa colorida, cheia de enfeites, e preenchida por risadas. Era
quente. E ele se lembrava do cheiro de flores, tão agradável e doce, que ele
sentia sempre que ela passava. Ela deixava um rastro de perfume. Agora, ele nem
podia mais se lembrar do cheiro bom. Agora, todo o cheiro que restava era
cheiro de morte, e cheiro de corpos queimados. Fedia.
Ele não conseguia parar de pensar no incêndio que levou a
vida de tantos jovens. Quando investigava um caso, se envolvia profundamente. E
ele costumava pensar melhor durante a noite. Por isso, naquela noite, ele
analisou as informações que eles tinham. A mais importante delas era a única
testemunha, e agora também o principal suspeito. Alexander estudava na mesma
escola, e estava presente no momento da tragédia. Foi ele quem chamou as
autoridades. Em choque, o rapaz não conseguiu dizer muita coisa. Benjamin
planejava conversar com ele em breve. Mas revendo seu primeiro depoimento, Benjamin
esperava descobrir algumas coisas. As falas do rapaz eram confusas e aparentemente
sem sentido. Mas ele estava longe de ser considerado um lunático.
“Eu sabia que iria acontecer. Eu estava lá. E então eu
ouvi aquela música. Aquela maldita caixinha de música tocando. E então gritos”.
Benjamin notou que estava disperso. Mesmo relendo as
palavras de Alexander, ele não conseguia pensar em nada. Nunca se tocou com
nenhum caso que já havia investigado, por que agora era diferente? Não era
tanto o caso em si que o incomodava. Era o fogo. E o cheiro.
Ele se lembrou das palavras de Victoria:
“Você preferiria morrer queimado ou afogado?”
Calafrios percorriam seu corpo. Bem, ele preferiria não
morrer. Se tivesse opção, não morreria de jeito nenhum. Mas a filha de Victoria
afirmava que era melhor morrer queimado, como aqueles rapazes na escola. Porque
seus corpos estavam irreconhecíveis e ninguém podia ver suas expressões ao
morrerem.
Mas com ela foi diferente. De certa forma, estava
irreconhecível. Mas ainda era ela, e ele viu sua expressão, sua boca, seus
olhos... E ele não conseguia mais esquecer.
Benjamin passou a mão pelos cabelos, suspirando. Havia
perdido a cabeça? Por que pensar naquelas coisas agora? Tinha que focar em seu
trabalho, como sempre fez, na tentativa de esquecer aquelas coisas. De se
ocupar com a morte dos outros, porque eles não tinham relação nenhuma com ele.
A morte do outro trazia um alívio constrangedor. Um lembrete de que ele estava
vivo.
Enquanto relia as palavras de Alexander, fragmentos de
memória invadiam sua mente. O frio congelante, a água entrando por seus
sapatos, um som agudo no ouvido. E então se lembrou de olhar para sua mão
ensanguentada, o sangue vermelho e vivo pingando, transformando o quarto todo
em vermelhidão. O som se tornava mais alto. Naquela noite, ele deu um soco no
espelho e o partiu em pedaços. Ver o sangue em sua mão o fazia lembrar que ela
não sangrou. Ela simplesmente... Parou de respirar.
Benjamin mal dormiu aquela noite. As pessoas costumavam
elogiá-lo pela beleza, por isso ele sempre fez questão de manter alguns hábitos
saudáveis, como a rotina de sono. Ultimamente, aquela não era mais uma
realidade.
Encontrou-se, no dia seguinte, com Victoria. Os dois
comeram juntos, enquanto revisavam alguns detalhes. Comentaram sobre o
depoimento de Alexander. Logo depois, encontraram o suspeito, que parecia um
rapaz normal. Não era como se todo assassino carregasse uma placa no pescoço
escrito “perigo”. Mas ele simplesmente parecia mais uma criança assustada do
que qualquer outra coisa. Victoria observava atentamente enquanto Benjamin
fazia perguntas ao rapaz. Ele respondia tudo de maneira vaga, olhando para
frente, como se não visse os dois.
– Você estava lá naquele dia. – Benjamin afirmou e
Alexander assentiu. – Foi você quem trancou as portas?
– Não. Eu não poderia... Fazer algo assim.
– Você estava do lado de fora. Você ouviu os gritos. Você
tentou destrancar as portas?
– Não. Eu não conseguiria.
– Pode nos contar o motivo?
– Por causa da canção.
– A canção da caixinha de música.
Alexander pareceu muito surpreso. Assustado. Benjamin só
estava afirmando o que ele próprio havia dito anteriormente.
– Por que a surpresa? – ele perguntou ao rapaz.
– Você é a primeira pessoa que não me olha como lunático.
É claro que não olharia. Aquele rapaz parecia
completamente consciente de tudo o que estava acontecendo, mesmo com o medo
visível em seus olhos. Ele continuou respondendo a todas as perguntas de
maneira confusa e aquilo parecia não levar a nada. Muitas coisas o apontavam
como principal suspeito. Mas Benjamin sabia que o simples nem sempre é
realmente simples.
– Qual era música que tocava? Na caixinha de música?
– Uma música de inverno. Eu ouvi os gritos. Mas a música
me paralisou. Eu não poderia fazer nada. Não com aquela música.
– De quem era a caixinha de música? Sua?
– Não.
– Foi você quem a colocou para tocar?
– Não.
– Quem foi?
O rapaz começou a chorar. Seu choro não parecia nem perto
de chegar ao fim, por isso Benjamin e Victoria esperaram pacientemente, mas
Benjamin decidiu se levantar.
– Aonde o senhor vai? Ainda temos muitas perguntas a
fazer. – Victoria questionou.
– É melhor darmos um tempo a ele. Voltamos depois.
– Ele é quem estamos procurando, não é?
– Eu não acho. Se o que ele diz é verdade, mais alguém
estava com ele no mesmo lugar, no mesmo momento. Alguém colocou a caixinha de
música para tocar, que o paralisou e impediu de salvar os colegas. Ele foi o
único daquela classe a sobreviver. Isso não o torna automaticamente o culpado.
Mas me faz pensar...
– O quê?
– Ele não parecia ter feito algo. Mas parecia saber quem
fez.
Os dois discutiram um pouco mais, mas não chegaram a
nenhuma conclusão clara no momento. Mas Benjamin não podia esquecer o olhar no
rosto do rapaz. O olhar de quem se culpa por simplesmente estar vivo. Ele já
havia visto aquele olhar antes. O olhar de quem restou.

Muito divertido. Curiosa para saber a relevância da caixinha de música e o poder para paralisar alguém. Faz o leitor levantar a suspeita que o criminoso seja uma moça. Veja só o leitor dando uma de Benjamin. ��
ResponderEliminarHahahaha isso é o mais legal, investigar junto e ir seguindo as pistas. Fico feliz que tenha gostado da leitura. Obrigada!
EliminarBella Lagoeiro. Saiba de uma coisa. Você ganhou um seguidor. Eu também faço parte do projeto Em Um Mês, Um Conto. Seu conto tem uma trama crescente e sua narrativa é sombria e encaixa certinho. Confesso que gostei da personagem Benjamin, ele possui segredos obscuros e isso enriquece a trama. Vamos para a segunda parte.
ResponderEliminarMuito grata pelas suas palavras. Fico extremamente feliz que tenha gostado! Aguardo ansiosamente o seu conto também. Muito obrigada!
EliminarA melhor autora do Brasil!
ResponderEliminarhahaha muito obrigadaaaa!
EliminarAdorei o início do seu conto. Estou curiosíssima para saber como vai acabar.
ResponderEliminarMuito obrigada. Espero que goste das outras partes também!
EliminarAdorei! Curiosa para saber o que aconteceu com Benjamin...uma mistura de suspense com policial, muito bom!!!
ResponderEliminarMuito obrigada! Fico feliz que tenha gostado.
EliminarNossa!! Agora vou ficar assustada se ouvir música! Mais um trabalho excelente de uma autora incrível! Sou sua fã, Bella! <3
ResponderEliminarE eu sou sua fã também. É recíproco! hahaha Muito obrigada! <3
EliminarBella, eu amei! E não podia ser diferente é claro. Confesso ter uma certa dificuldade para me concentrar, porém os seus contos me fazem ficar como o Alexander kkkk totalmente ipnotizada �� Ansiosa para as próximas partes. Que cheguem logo! �� Parabéns e muito sucesso! ��������������
ResponderEliminarAh, isso me deixa feliz demais em saber! Sempre conto com o seu apoio e sou muito grata. Espero que você continue amando!
EliminarGostei da trama sombria com ares de terror. Interessante o background do Benjamin. Gostaria de saber mais da Victoria também.
ResponderEliminarFico feliz que tenha gostado. Em breve vamos saber mais sobre os dois... Muito obrigada por ter lido!
EliminarUau, adorei essa primeira parte! Fui conquistada logo na descrição do cheiro da morte, estou ansiosa pra ler o restante e também pra conhecer a história do Benjamin.
ResponderEliminarEspero que você goste do restante! Muito obrigada!
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