quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O que resta - Parte 1

    Quando alguém se depara com a morte, várias podem ser as reações e também as impressões deixadas. Para ele, era uma coisa normal e rotineira. Deixou de ser especial há muito tempo. Não havia choro que o tocasse. Nem imagem que o fizesse desejar não poder enxergar mais. Não havia som que o perturbasse e tirasse sua concentração. Mas havia algo com o qual ele nunca se acostumou. Os cheiros.

            A morte não cheira bem. Naquele momento, principalmente, ele tinha a certeza disso. O cheiro de corpos queimados era algo que ele não poderia esquecer facilmente. Mesmo depois que chegasse em casa, provavelmente ficaria esfregando o nariz, esperando que algum outro cheiro pudesse substituí-lo. Aquilo o incomodava muito, mas ele não deixava que ficasse em seu caminho. Afinal de contas, aquele era o trabalho dele.

            ­­– Benjamin. – uma voz feminina o chamou. – Eu estarei encarregada, junto ao senhor, da investigação. Ouvi dizer que o senhor não gosta de ajudantes. Mas eu realmente estou muito, muito curiosa.

            Ela o encarava com um sorriso no rosto. Provavelmente não havia ouvido falar sobre o quão sistemático ele era. Não gostava que se referissem a ele de forma tão amigável e despreocupada. Ele era jovem e, por isso, subestimado em seu trabalho. Tinha que passar por provas o tempo inteiro e mostrar que era capaz, independente de sua idade. Sua insegurança em relação a isso se escondia por detrás de uma arrogância que fazia com que as pessoas o evitassem, especialmente depois de conhecê-lo um pouco mais.

            ­– Não é necessário me chamar de senhor. – ele deu um sorriso seco. – Afinal de contas, a senhora é provavelmente muito mais... Experiente do que eu.

            Ela abriu um sorriso largo. Era inteligente; sabia que ele havia acabado de chamá-la de velha. Não era mentira. Ela não era mais uma menina, mas uma mulher madura e experiente, embora a aparência às vezes a fizesse parecer mais jovem do que era.

            – Vamos nos dar bem, certamente. É praticamente impossível me tirar do sério, sabe. Meu nome é Victoria. É um grande prazer.

            Benjamin e Victoria andaram pela cena do crime, observando atentamente todos os detalhes que poderiam captar no momento. Tratava-se, claramente, de um incêndio. Mas não era um incêndio comum. Ali, naquele antigo salão de festas, mais de cem rapazes acabaram morrendo, de forma trágica e cruel. De imediato, a polícia soube que não se tratava de mais um caso de acidente a se tratar. A primeira coisa que Benjamin notou foi a porta. Muitos corpos estavam abandonados bem em frente a ela, como se buscassem freneticamente sair. Era meio óbvio: ninguém quer ser queimado vivo. Mas o que os impediu de simplesmente saírem correndo?         

            Era claro: a porta havia sido trancada. O local também não era aleatório: o salão de festas era o cômodo mais isolado do prédio. Não tinha janelas, apenas duas grandes portas, ambas trancadas.

            A escola para rapazes ficava também consideravelmente distante da área mais povoada da cidade. Perto, existiam apenas casarões e mansões pertencentes a pessoas ricas e poderosas, que buscavam um pouco de privacidade e preferiam viver afastados da correria e barulheira da cidade. Ao redor, muita natureza. Os rapazes ali aprendiam de tudo, além das áreas de conhecimento mais clássicas. Era a escola mais renomada da região, onde apenas garotos ricos podiam estudar. As turmas englobavam várias idades diferentes, mas os infelizes que acabaram se envolvendo na tragédia eram rapazes de 17 a 20 anos.

            Essas eram as informações iniciais, as quais toda a equipe tinha acesso. Benjamin voltou a olhar para os corpos jogados em frente à porta e os imaginou tentando escapar. Não havia sido um acidente qualquer. Alguém havia trancado a porta.

            – Você não acha que foi um acidente. – Victoria concluiu, ao olhar a expressão no rosto de Benjamin.

            – Não posso achar nada. Preciso de certezas. E um fato é que cem homens não morrem queimados sem ninguém reagir.

            Victoria deu um sorriso, como se estivesse se lembrando de algo nostálgico.

            ­– Eu só me lembrei de algo. – ela disse, ao receber o olhar questionador dele. – Minha filha adorava fazer questionamentos que deixariam as pessoas encurraladas. Uma vez a peguei perguntando a um familiar: “você preferiria morrer queimado ou afogado?”. Ela às vezes respondia as próprias perguntas. Sabe qual foi a resposta dela para essa? “Eu preferiria morrer queimada”. Se morresse queimada, seu corpo se tornaria irreconhecível. Assim, ninguém teria que ver sua expressão ao morrer.

            – Você fala um pouquinho demais. – Benjamin concluiu.

            Benjamin e Victoria trabalharam juntos, seguindo as pistas deixadas. Depois de um longo dia de trabalho, Benjamin retornou para casa, sozinho. Vivia numa casa extremamente fria e vazia, sem decorações ou cores vivas, toda em tons de cinza e branco. Cinza era sua cor preferida. Mas nem sempre foi assim.

            Houve um tempo em que Benjamin era uma pessoa completamente diferente, e conseguia sorrir sem sarcasmo. Houve um tempo em que ele vivia numa casa colorida, cheia de enfeites, e preenchida por risadas. Era quente. E ele se lembrava do cheiro de flores, tão agradável e doce, que ele sentia sempre que ela passava. Ela deixava um rastro de perfume. Agora, ele nem podia mais se lembrar do cheiro bom. Agora, todo o cheiro que restava era cheiro de morte, e cheiro de corpos queimados. Fedia.

            Ele não conseguia parar de pensar no incêndio que levou a vida de tantos jovens. Quando investigava um caso, se envolvia profundamente. E ele costumava pensar melhor durante a noite. Por isso, naquela noite, ele analisou as informações que eles tinham. A mais importante delas era a única testemunha, e agora também o principal suspeito. Alexander estudava na mesma escola, e estava presente no momento da tragédia. Foi ele quem chamou as autoridades. Em choque, o rapaz não conseguiu dizer muita coisa. Benjamin planejava conversar com ele em breve. Mas revendo seu primeiro depoimento, Benjamin esperava descobrir algumas coisas. As falas do rapaz eram confusas e aparentemente sem sentido. Mas ele estava longe de ser considerado um lunático.

            “Eu sabia que iria acontecer. Eu estava lá. E então eu ouvi aquela música. Aquela maldita caixinha de música tocando. E então gritos”.

            Benjamin notou que estava disperso. Mesmo relendo as palavras de Alexander, ele não conseguia pensar em nada. Nunca se tocou com nenhum caso que já havia investigado, por que agora era diferente? Não era tanto o caso em si que o incomodava. Era o fogo. E o cheiro.

            Ele se lembrou das palavras de Victoria:

            “Você preferiria morrer queimado ou afogado?”

            Calafrios percorriam seu corpo. Bem, ele preferiria não morrer. Se tivesse opção, não morreria de jeito nenhum. Mas a filha de Victoria afirmava que era melhor morrer queimado, como aqueles rapazes na escola. Porque seus corpos estavam irreconhecíveis e ninguém podia ver suas expressões ao morrerem.

            Mas com ela foi diferente. De certa forma, estava irreconhecível. Mas ainda era ela, e ele viu sua expressão, sua boca, seus olhos... E ele não conseguia mais esquecer.

            Benjamin passou a mão pelos cabelos, suspirando. Havia perdido a cabeça? Por que pensar naquelas coisas agora? Tinha que focar em seu trabalho, como sempre fez, na tentativa de esquecer aquelas coisas. De se ocupar com a morte dos outros, porque eles não tinham relação nenhuma com ele. A morte do outro trazia um alívio constrangedor. Um lembrete de que ele estava vivo.

            Enquanto relia as palavras de Alexander, fragmentos de memória invadiam sua mente. O frio congelante, a água entrando por seus sapatos, um som agudo no ouvido. E então se lembrou de olhar para sua mão ensanguentada, o sangue vermelho e vivo pingando, transformando o quarto todo em vermelhidão. O som se tornava mais alto. Naquela noite, ele deu um soco no espelho e o partiu em pedaços. Ver o sangue em sua mão o fazia lembrar que ela não sangrou. Ela simplesmente... Parou de respirar.

            Benjamin mal dormiu aquela noite. As pessoas costumavam elogiá-lo pela beleza, por isso ele sempre fez questão de manter alguns hábitos saudáveis, como a rotina de sono. Ultimamente, aquela não era mais uma realidade.

            Encontrou-se, no dia seguinte, com Victoria. Os dois comeram juntos, enquanto revisavam alguns detalhes. Comentaram sobre o depoimento de Alexander. Logo depois, encontraram o suspeito, que parecia um rapaz normal. Não era como se todo assassino carregasse uma placa no pescoço escrito “perigo”. Mas ele simplesmente parecia mais uma criança assustada do que qualquer outra coisa. Victoria observava atentamente enquanto Benjamin fazia perguntas ao rapaz. Ele respondia tudo de maneira vaga, olhando para frente, como se não visse os dois.

            ­– Você estava lá naquele dia. – Benjamin afirmou e Alexander assentiu. – Foi você quem trancou as portas?

            – Não. Eu não poderia... Fazer algo assim.

            – Você estava do lado de fora. Você ouviu os gritos. Você tentou destrancar as portas?

            – Não. Eu não conseguiria.

            – Pode nos contar o motivo?

            – Por causa da canção.

            – A canção da caixinha de música.

            Alexander pareceu muito surpreso. Assustado. Benjamin só estava afirmando o que ele próprio havia dito anteriormente.

            – Por que a surpresa? – ele perguntou ao rapaz.

            – Você é a primeira pessoa que não me olha como lunático.

            É claro que não olharia. Aquele rapaz parecia completamente consciente de tudo o que estava acontecendo, mesmo com o medo visível em seus olhos. Ele continuou respondendo a todas as perguntas de maneira confusa e aquilo parecia não levar a nada. Muitas coisas o apontavam como principal suspeito. Mas Benjamin sabia que o simples nem sempre é realmente simples.

            – Qual era música que tocava? Na caixinha de música?

            – Uma música de inverno. Eu ouvi os gritos. Mas a música me paralisou. Eu não poderia fazer nada. Não com aquela música.

            – De quem era a caixinha de música? Sua?

            – Não.

            – Foi você quem a colocou para tocar?

            – Não.

            – Quem foi?

            O rapaz começou a chorar. Seu choro não parecia nem perto de chegar ao fim, por isso Benjamin e Victoria esperaram pacientemente, mas Benjamin decidiu se levantar.

            – Aonde o senhor vai? Ainda temos muitas perguntas a fazer. – Victoria questionou.

            – É melhor darmos um tempo a ele. Voltamos depois.

            – Ele é quem estamos procurando, não é?

            – Eu não acho. Se o que ele diz é verdade, mais alguém estava com ele no mesmo lugar, no mesmo momento. Alguém colocou a caixinha de música para tocar, que o paralisou e impediu de salvar os colegas. Ele foi o único daquela classe a sobreviver. Isso não o torna automaticamente o culpado. Mas me faz pensar...

            – O quê?

            – Ele não parecia ter feito algo. Mas parecia saber quem fez.

            Os dois discutiram um pouco mais, mas não chegaram a nenhuma conclusão clara no momento. Mas Benjamin não podia esquecer o olhar no rosto do rapaz. O olhar de quem se culpa por simplesmente estar vivo. Ele já havia visto aquele olhar antes. O olhar de quem restou. 

18 comentários:

  1. Muito divertido. Curiosa para saber a relevância da caixinha de música e o poder para paralisar alguém. Faz o leitor levantar a suspeita que o criminoso seja uma moça. Veja só o leitor dando uma de Benjamin. ��

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    1. Hahahaha isso é o mais legal, investigar junto e ir seguindo as pistas. Fico feliz que tenha gostado da leitura. Obrigada!

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  2. Bella Lagoeiro. Saiba de uma coisa. Você ganhou um seguidor. Eu também faço parte do projeto Em Um Mês, Um Conto. Seu conto tem uma trama crescente e sua narrativa é sombria e encaixa certinho. Confesso que gostei da personagem Benjamin, ele possui segredos obscuros e isso enriquece a trama. Vamos para a segunda parte.

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    1. Muito grata pelas suas palavras. Fico extremamente feliz que tenha gostado! Aguardo ansiosamente o seu conto também. Muito obrigada!

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  3. Adorei o início do seu conto. Estou curiosíssima para saber como vai acabar.

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    1. Muito obrigada. Espero que goste das outras partes também!

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  4. Adorei! Curiosa para saber o que aconteceu com Benjamin...uma mistura de suspense com policial, muito bom!!!

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  5. Nossa!! Agora vou ficar assustada se ouvir música! Mais um trabalho excelente de uma autora incrível! Sou sua fã, Bella! <3

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    1. E eu sou sua fã também. É recíproco! hahaha Muito obrigada! <3

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  6. Bella, eu amei! E não podia ser diferente é claro. Confesso ter uma certa dificuldade para me concentrar, porém os seus contos me fazem ficar como o Alexander kkkk totalmente ipnotizada �� Ansiosa para as próximas partes. Que cheguem logo! �� Parabéns e muito sucesso! ��������������

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    1. Ah, isso me deixa feliz demais em saber! Sempre conto com o seu apoio e sou muito grata. Espero que você continue amando!

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  7. Gostei da trama sombria com ares de terror. Interessante o background do Benjamin. Gostaria de saber mais da Victoria também.

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    1. Fico feliz que tenha gostado. Em breve vamos saber mais sobre os dois... Muito obrigada por ter lido!

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  8. Uau, adorei essa primeira parte! Fui conquistada logo na descrição do cheiro da morte, estou ansiosa pra ler o restante e também pra conhecer a história do Benjamin.

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