As batidas na porta eram cada
vez mais fortes. A mãe de Tomaz tremia no canto da sala, lembrando-se do que
havia visto no carro. Lembrava-se de tudo. Muitos anos atrás, quando seu
inferno pessoal começou. Ela nunca realmente amou o marido, mas ele a dava
estabilidade, uma sensação de segurança. Ela sempre sentia que, quando estavam
juntos, ela era protegida do resto do mundo e de toda sua maldade. Ele sempre
foi gentil. Mas ela simplesmente... Não o amava.
Havia casado muito jovem. Era ainda uma menina ingênua e
inexperiente em todos os campos da vida. Logo se tornou uma criança que
carregava outra no ventre. Ela nunca quis ser mãe. Tinha medo. E, depois de
grávida, esse medo só aumentou, somando um desconforto que não a abandonava.
Ela queria fugir de tudo. Da casa, das responsabilidades, do marido. Mas como
fugiria carregando uma criança dentro de si? Seria capaz de cuidar dela
sozinha? Foi então que ela passou a enxergar aquele pequeno ser como o causador
de toda sua infelicidade. Ele a impedia de seguir em frente.
Os médicos diziam que ela estava deprimida. Ela pouco se
importava. Ela apenas não estava pronta. Mas, quando ele nasceu, tudo mudou.
Ela viu seu rostinho pela primeira vez, segurou seu corpinho e sentiu sua pele
macia, com aquele cheirinho adorável que só os bebês têm. De repente, o peso da
responsabilidade não a esmagava mais. Ela só queria amar e ser amada por aquela
criaturinha. Não precisava de mais nada.
Era um lindo menino. Em todos os aspectos, ele foi um dia
adorável. Tão adorável quanto sua preciosa Ingrid. Mas ele começou a crescer. A
cada dia, a mãe sentia que o conhecia menos. Começou a notar comportamentos que
ela definitivamente não esperava numa criança. Ele sempre mentia para ela,
desde as coisas mais banais, até as mais sérias. Era só uma criança, mas já
sabia mentir e olhar em seus olhos sem um pingo de hesitação. Onde ele havia
aprendido aquelas coisas?
Mas ela ainda o amava. Era sua criança, seu primeiro e
amado filho. O marido insistia em levá-lo para passear na floresta, e eles
voltavam sempre muito tarde, suados e cansados. Não demorou para que Tomaz
aprendesse a caminhar pela floresta de olhos fechados, desvendando seus
segredos e conhecendo-a como a palma de sua mão.
A mãe fechou os olhos, com uma expressão triste e sofrida
no rosto. Lembrar-se daquelas coisas era doloroso. Um tempo em que ela
acreditava que eles seriam felizes e ficariam juntos para sempre.
Mais batidas na porta. Ela balançava tão violentamente
que parecia prestes a cair. Tomaz olhou para a mãe e suspirou profundamente. Se
ela estava com medo, ele não estava. Era um rapaz destemido e aquela era sua
principal virtude. Levantou-se do sofá onde estava e caminhou em direção da
porta, sentindo o olhar dela, julgando-o e analisando-o. Mas
ela não o impediu. De nada adiantaria. O que estava feito, estava feito. Não se
pode mudar o passado.
Tomaz respirou fundo. Quando tocou a maçaneta,
as batidas pararam. Ele colocou a mão na porta, e do lado de fora, quem quer
estivesse, fez o mesmo. Os dois estavam conectados e Tomaz sentiu uma onda de
energia percorrer todo o seu corpo. Afastou-se, sem fôlego, e então abriu a
porta:
– Bem vindo de volta... – disse com firmeza. – Papai.
Não se parecia com o pai em nada, aquele ser parado à
porta. Na verdade, parecia que o pai tivesse sido arrancado do túmulo e
colocado ali, da maneira que estava. Era um corpo apodrecido e malcheiroso,
deformado, mas Tomaz tinha certeza: era o papai. Quando pediu que o pai
retornasse, jamais imaginou que aquilo fosse acontecer. Achou que o pai
retornaria vivo, de verdade, como ele era antes de tudo acontecer. Mas agora
ele era apenas um morto-vivo, um zumbi, uma criatura de filmes de terror com um
cheiro terrível, que mal podia ficar de pé, à porta da casa, com olhos cheios de
confusão.
Tomaz se sentia estranhamente atraído àquela visão que,
para qualquer um, seria assustadora e terrível. A mãe continuava tremendo no
canto da sala, sem olhar para nenhum dos dois, como se desejasse despertar logo
daquele pesadelo. Mas Tomaz, não. Ele era corajoso. E ele encarou o pai,
olhando-o diretamente nos olhos, e então se decidiu: deu um passo a frente e
caiu em seus braços, dando-o um abraço apertado.
– Eu senti sua falta! – ele disse, emocionado.
Tomaz sentia aquele corpo mole e frágil em contato com o
seu, perfeitamente vivo. O pai vestia roupas velhas e rasgadas que cobriam
parte do estrago, mas o pouco que se via dele, era aterrorizante. O cheiro era
tão desagradável que fazia seus olhos se encherem de lágrimas. Ele então se
lembrou da criatura responsável por tudo aquilo, que agora estava com sua
irmãzinha. O cheiro de carne crua, o perfume enjoativo. Mas agora, com o pai,
só se sentia cheiro de carne, mas podre, e nada de perfume, só um cheiro
bastante discreto de roupas velhas.
O pai o abraçou de volta. Parecia confuso e não ter muita
consciência do que acontecia ao seu redor, mas talvez ainda tivesse
sentimentos. Sabia mesmo quem era ele? Lembrava-se dele? As coisas poderiam
voltar ao normal, mesmo que ele fosse literalmente um cadáver de pé. Todos
poderiam ignorar aquele detalhe, se ele continuasse sendo o pai que
sempre foi.
O abraço pareceu durar uma eternidade. Mas durou apenas
alguns segundos. A mãe deu um grito, mas não era de susto, mas de raiva. Correu
em direção aos dois e os separou com um empurrão, tão forte que fez Tomaz cair
no chão. O homem morto-vivo permaneceu com aquele olhar confuso e perturbador.
– Não ouse! – a mãe disse ameaçadoramente para Tomaz, que
a olhava do chão com um olhar ferido. – Não olhe assim para mim.
– Como eu deveria, então, olhar para você, mamãe? Estamos
na mesma sala que um cadáver que acabou de ganhar vida. No entanto, o
verdadeiro monstro aqui ainda sou eu, não é?
– Por que você é tão cínico?
– Sim, mamãe, eu matei minha irmãzinha. Eu a joguei no
poço, direto para a morte. Porque eu fiz um pacto com uma criatura no meio da
noite, e pedi que o papai voltasse à vida. Porque eu queria que as coisas
voltassem a ser o que eram antes. E em troca, eu tinha que dar algo. Você
preferia que fosse você, não é? Mas isso não serviria. Não, não serviria.
– Você é ainda mais louco do que eu pensei.
– Eu sou louco? Você está vendo, não está? O papai. Eu
não sou louco. O pacto é real. O Billy é real.
– Você queria seu pai vivo... Assim como um dia o quis
morto. Você sempre gostou de brincar de Deus. Mas você não pode decidir isso,
Tomaz.
Tomaz realmente não se lembrava. Ou fingia não se lembrar
para que as coisas ficassem bem. O pai havia morrido há algum tempo, mas ele
não lembrava como. Lembrava-se do velório. Das pessoas cochichando e olhando em
sua direção. Ninguém sabia de nada ao certo, mas as fofocas se espalhavam
rapidamente. Mas ele nunca, em momento algum, jamais se esqueceu da expressão
da mãe sempre que seus olhares se cruzavam. Ela o olhava com nojo.
– Você é um monstro. Sempre foi. Eu tentei não ver, mas
era impossível. Bastou que eu o visse uma vez na floresta. Encarando aquele
poço escuro, esperando uma resposta, enquanto jogava animais mortos buraco
abaixo. Animais que você matou. Eu não podia acreditar, porque você era apenas
uma criança. – a mãe passou a mão pelos cabelos e olhou agora na direção do
pai. – Até que você fez... Isso.
Tomaz estava em silêncio, absorvendo as palavras dela. As
lembranças começavam a voltar, escondidas por ele mesmo. Ele não sentia culpa.
Nunca sentiu. Mas sentia vazio. Falta de amor. Sentia a escuridão o consumindo.
– Você e o seu pai sempre andavam por aquela maldita
floresta. Seu pai o ensinava sobre flores, plantas e animais. Você nunca
respeitou a natureza, ou a ordem natural das coisas. Eu me lembro de poucas
coisas. Mas me lembro de ver você voltando para casa com algumas plantas
enroladas num pano. Eu te perguntei o que era aquilo, e você disse que as
guardaria para sempre, pois elas eram lindas. Eu subestimei você. Subestimei
sua capacidade de mentir. E então seu pai... Estava morto. Os médicos disseram
que fora veneno. Uma planta venenosa, que se transformou numa bebida tentadora.
Ele nunca iria desconfiar do próprio filho. Eles disseram que você era só uma
criança e que não sabia o que estava fazendo. Não seria capaz disso. Mas eu te
conhecia. Eu te dei à luz. Você fez de propósito, você sabia o que estava
fazendo. Você envenenou seu próprio pai. O matou, e então eu soube que você era
o próprio mal.
Tomaz se lembrava de tudo agora. Mas não sentia culpa.
Não entendia, de verdade, o que havia feito de errado. O pai era um bom homem.
Era gentil e amigável, o levava para passeios na floresta e falava por horas da
natureza. Mas então Tomaz soube que a mãe estava grávida, novamente. Haveria
mais um, e ele tomaria o lugar de Tomaz. Tomaz sabia bem daquilo. As coisas seriam
diferentes e já estavam sendo. Ele não conseguiria nenhuma atenção daquela
forma. Ninguém o amava de verdade. E isso era tudo o que ele queria. Amor.
Ele não conseguia suportar ver o pai, e não conseguia
suportar imaginar outra criança pela casa. A mãe estava cada vez mais distante.
Ela o olhava de maneira diferente e, aos poucos, ia se transformando. Ele
sentia falta do abraço dela. De sua voz doce a cantar canções de ninar para que
ele dormisse. Sentia falta de seu olhar cheio de amor e orgulho, os olhos
verdes brilhando... Ela não o olhava assim desde que ele começara a mentir. E
não conseguia mais parar.
– Por quê? – a mãe perguntou. – Por que você é tão mal?
Por que não me deixa em paz? Isso é tudo uma alucinação. Mas o que eu sei que é
você tirou Ingrid de mim. Você tirou tudo de mim...
Tomaz olhou para a porta, onde o pai estava. Não havia
mais ninguém. E o pacto? E o retorno do pai? Estava enlouquecendo? De qualquer
forma, não achava que havia sacrificado Ingrid em vão. Ele fez um pedido em troca
dela. Lembrou-se da pergunta que ouvira:
O que você quer tão desesperadamente?
O que ele pediu foi pelo retorno do pai. Mas o que ele
realmente queria era outra coisa: era o amor da mãe. Ou o ódio. Queria que ela
sentisse algo por ele.
Talvez a criatura tivesse olhado diretamente para o seu
coração e entendido aquilo. E havia funcionado: a mãe o olhava como se ele
fosse uma assombração, um ser aterrorizante e grotesco. Ele era apenas um
garoto. Não era mais uma criança, mas ainda era inocente. Ele não era mal. Tudo
o que havia feito, havia sido por ela. Para que o visse.
– Por que você não entende? – Tomaz perguntou a ela, como
se ela pudesse ouvir seus pensamentos e entender exatamente do que ele estava
falando.
Pela primeira vez em muito tempo, Tomaz chorou. Ele só se
lembrava de chorar quando era ainda um bebê. Depois, como a maioria dos homens,
foi construindo uma armadura ao redor de si. Não podia demonstrar fraqueza, não
podia chorar ou ser vulnerável. Mas agora, nada daquilo importava.
– Eu não acredito nas suas lágrimas de crocodilo. – ela
disse com frieza.
– Por quê? – ele deu um grito, assustando-a. – Por que
você me odiou a vida inteira? Por que me olha assim? Eu sou seu filho, não sou?
Então por que você me trata como lixo? Por que você... Tem medo de mim?
– Eu te amei muito, desde o seu nascimento. Mas você não
é bom, Tomaz. Você tem essa... Energia estranha. Você mente. Você machuca os
outros. E você não sente culpa. Mas eu sinto.
– É isso que você sente quando olha para mim? Culpa?
– Sim. Porque eu não consegui te criar direito. Não
consegui te consertar. Fico pensando se tudo isso foi culpa minha. Você é só
uma criança, então, como pode ser tão ruim? Você supostamente deveria ser puro.
Inocente. Mas você não é. E eu desisti de você. Eu deveria ter te ajudado, mas
eu desisti de você.
– Ainda pode lutar por mim. Pode me ajudar.
– Não, não posso. Porque você não é real. Billy, você não
é real.
Tomaz não entendeu do que ela estava falando. Ainda
chorava, mas agora começava a ser dominado por sentimentos conflitantes. A mãe
começou a chorar também. Ele olhou ao redor, para a casa onde nasceu e cresceu.
Tudo parecia distante. Os cheiros, os sons, as pessoas. Tudo era vazio.
– Você precisa ver. – a mãe afirmou.
Ver o quê? Tomaz viu a mão dela estendida e quase gritou
de felicidade. Segurou-a e mais lágrimas caíram. Fazia muito tempo que eles não
davam as mãos daquela forma. Ele sentia falta do calor. Sentia falta do afeto.
Sentia falta de ser visto e ouvido. O que estava acontecendo? Para onde ela o
estava levando? Os dois caminharam no escuro, percorrendo o mesmo caminho que
ele fizera naquela mesma noite com Ingrid. Mas agora era diferente. Ele sentia
que tudo era diferente.
Chegaram ao poço, ambos chorando silenciosamente. A
escuridão da floresta não o impedia de ver. Pelo contrário, ele parecia
enxergar com mais clareza. Olhou para a mãe e por um momento pensou que ela
fosse uma criatura divina. A mãe soltou sua mão e voltou a olhar para ele, mas
agora não havia mais ódio em seu olhar.
– Eu sinto muito. Eu não sou como você. Eu sinto culpa.
Então, talvez seja por isso que você me tirou o resto de felicidade que eu
ainda tinha. Porque eu mereci.
– O que você está dizendo, mamãe?
– Você precisa ver.
E então ele viu.
Foi capaz de ver sua vida inteira como num filme. Era um
filme pequeno, curto como a vida havia sido. Ele não sabia de nada. Não havia
experimentado nada. Porque ele vivia preso naquele maldito poço.
Ele se lembrou do nascimento de Ingrid. Da maneira com
que a mãe a olhava, como se ela fosse um verdadeiro anjo. A criatura mais bela
e pura da face da terra. Ingrid era diferente dele. Ele não era uma criança
normal. Ele era mal.
Então, a mãe já não suportava mais vê-lo. Não suportava
saber que ele a havia tirado o marido tão cruelmente. Não suportava,
principalmente, ver a maneira com que ele olhava para a irmãzinha. Se ele havia
pecado uma vez, pecaria novamente. Porque ele havia nascido um pecador. Ela
tinha que pôr um fim a tudo.
Por isso, numa tarde, ela o seguiu até a floresta. O viu
olhando para o poço como se buscasse por si mesmo na escuridão. Como uma
verdadeira covarde, ela se aproximou em silêncio. Tomaz estava inclinado, numa
posição perfeita para que ela não precisasse fazer muito esforço. Então ela o
empurrou. O empurrou, e ele caiu dentro do poço. Como Ingrid havia sido jogada,
ela o jogou sem nenhum aviso e sem nenhuma chance de se defender. Mas ao
contrário de Ingrid, ele não gritou. Não fez som algum. Só caiu, caiu e caiu.
Caiu no silêncio eterno. E então a mãe viu com horror o que havia feito.
Arrependeu-se no mesmo instante. Tomaz era só uma criança. Uma criança má, sim,
mas ela desistiu dele. Ele nunca teve chance de se redimir.
Nos anos seguintes, ela viveu com a culpa e com Ingrid,
fazendo o possível para que ela crescesse feliz. Mentiu para todos, que
acreditaram se tratar de um acidente. Às vezes, ela ainda sentia a presença de
Tomaz na casa, mas talvez fosse só o que ela queria. Que ele voltasse, que a
perdoasse pela coisa horrenda que ela fez. Por não ter sido uma boa mãe.
Tomaz continuou vagando pela floresta e pela casa, por
anos, falando com si mesmo, a criança na escuridão do poço. E então, naquela
noite, ele decidiu que queria que as coisas fossem como antes. Ele fez um pacto
e conseguiu o que mais queria. Fez à irmã o que tinham feito a ele anos antes.
Ao menos agora ele não ficaria mais sozinho, no frio e no escuro. A irmãzinha o
faria companhia para sempre.
Ele voltou a olhar para a mãe, sabendo que seria a última
vez que a veria. Mas nunca se esqueceria dela. A perdoava, sim. Entendia seus
motivos. Ela não deveria sentir culpa. Ela fez o que era certo.
– Tudo o que eu sempre quis foi o seu amor. – ele
confessou a ela.
– E você o terá, Tomaz. Eu te amei e te odiei na mesma
intensidade. E você nunca se esquecerá de mim. Eu fui a primeira pessoa que
você viu ao nascer. E também fui a última pessoa que você viu antes de morrer.
Eu sempre estarei na sua memória. E você, na minha.
Tomaz sorriu. Parecia um sorriso sincero, mas ainda assim,
diabólico. Era justo que ela fosse a responsável pelo seu destino. Que ela o
desse e o tirasse a vida. Ela era, sim, divina. Ela era tudo.
– Você fez o certo, meu amigo. – Billy disse de dentro do
poço.
Tomaz pulou com os olhos bem abertos em direção à
escuridão. Ele queria ver tudo. Ele tinha que ver.
O mal continuava lá, e nem iria embora. O mal crescia
dentro de cada um deles. E quando, eventualmente, outra criança surgisse e se
sentisse atraída pela escuridão, Tomaz, ou Billy, a guiaria.
Porque ele era o verdadeiro mal.

Sem comentários:
Enviar um comentário