sexta-feira, 16 de outubro de 2020

O mal dentro de mim - Parte 2

 


            Tomaz andava silenciosamente pela casa, no escuro, como o intruso que ele sentia que era. Foi até o quarto de Ingrid, e a viu dormindo como um anjo, com a expressão serena e adorável, livre de qualquer sonho ruim. Aproximou-se dela, observando-a de perto, pensando em como ele e a irmãzinha eram diferentes em todos os aspectos. Mesmo assim, por que ela merecia mais amor do que ele? Por que ela era melhor? Ela sempre teve tudo, até mais do que poderia desejar. Ela não precisava fazer esforço algum. Ela era pura e inocente, incapaz de fazer mal a qualquer um. Incapaz, até mesmo, de ter pensamentos impróprios e malignos. Tomaz imaginava que na mente da irmã só existia luz, bondade e gentileza. Seres mágicos flutuando e emitindo brilho, cheios de sorrisos e nenhuma dor. Ela não conhecia a tristeza, o sofrimento, a maldade. Era um anjo.

            Tomaz nunca considerou como ela realmente se sentia. Era uma criança, mas tinha sentimentos mais profundos, e não apenas sonhos e ilusões. Ela nunca conheceu o pai. E ela vivia sem qualquer tipo de liberdade, sufocada pelas preocupações da mãe e, principalmente, pelas expectativas de todos ao seu redor. Ela tinha que ser perfeita o tempo todo. Não podia cometer nenhum erro. Mas, para Tomaz, nada daquilo poderia existir. Apenas existia o que ele enxergava, ou melhor, o que ele queria enxergar sobre ela. Ele nem mesmo nunca a perguntou sobre seus sonhos e seus verdadeiros desejos. Ele não conhecia a própria irmã.

            Ela também não o conhecia. Não sabia do que ele era capaz. Embora vivessem na mesma casa, conviviam pouco. A mãe sempre dava um jeito de afastá-los, acreditando que Tomaz era uma péssima influência para seu anjinho. O tempo passava, Ingrid crescia, mas nada parecia mudar. Naquela casa, não existiam meios termos. Ela era o bem, ele era o mal. Mas, naquela noite, Tomaz apagaria as linhas que os separavam. Tudo se misturaria, como no mundo real, onde não existem coisas inteiramente boas, nem coisas inteiramente más.

            ­– Ingrid? – ele chamou baixinho.

            Os olhinhos da irmã piscaram algumas vezes, até ela finalmente parecer estar o enxergando. Ela não se assustou, nem parecia confusa.

            – Tomaz... – ela chamou. Era capaz de reconhecê-lo não só pela voz, mas também pelo cheiro.

            – Você precisa vir comigo. Eu tenho que te mostrar uma coisa.

            Ela não o questionou. Apenas se levantou e segurou a mão dele, deixando que o irmão o guiasse pela escuridão da casa. Embora os dois não fossem tão próximos, ela confiava muito nele. Era inocente, ingênua, incapaz de ver maldade nas ações dele. Era seu irmão mais velho, afinal de contas, e ela o amava incondicionalmente. Não entendia por que a mãe insistia em separá-los, ou por que Tomaz recebia aqueles olhares tortos o tempo todo. Não conhecia o que ele havia feito. O que ele fazia. Só o amava e admirava, e o seguiria para qualquer lugar de olhos fechados. Ela via o outro lado dele: o lado corajoso, gentil e carente, buscando atenção em todos os cantos, incapaz de ser visto de verdade. Ela o via. Era uma pena que eles mal conversassem.

            Os dois saíram da casa e continuaram caminhando silenciosamente. Quando adentraram a floresta, o aperto de Ingrid ficou mais forte. Sua mãozinha estava gelada e ele sabia que ela estava com medo. Ela, por fim, falou com a voz trêmula:

            – Aonde estamos indo, Tomaz?

            Tomaz sorriu, mas ela não pôde ver, no escuro. Era assustador a maneira com que ele andava pela escuridão tão naturalmente, como se conhecesse todos os seus arredores, como se fosse capaz de enxergar tudo. Ele tinha sentidos aguçados e conhecia aqueles lugares desde sempre. Já os havia explorado muitas vezes, no escuro ou à luz do dia, e agora não tinha dificuldades em saber exatamente para onde seguir. Tomaz carregava uma lanterna, mas a mantinha apagada. Ingrid não enxergava absolutamente nada e estava muito assustada, mas confiava no irmão. Ele segurava sua mão com firmeza, a alertava de buracos e galhos nos quais ela poderia tropeçar, e sua voz era tão gentil quanto seu toque. A mão dele era quente e macia.

            – Você vai conhecer alguém, Ingrid. Você precisa de novos amigos. – Tomaz respondeu por fim.

            Sua resposta, de alguma forma, acalmou a irmã. Ela assentiu e continuou andando de mãos dadas com ele, até chegarem ao destino final. Ingrid sentia frio. Timidamente, ela pediu ao irmão:

            – Pode acender a lanterna? Eu não consigo ver nada.

            – Não, irmãzinha. Você precisa aprender a enxergar. A enxergar de verdade.

            Ela não entendeu do que ele estava falando. Tomaz passou a mão pelos cabelos de Ingrid, sabendo que seria a última vez que os tocaria. Por muito tempo, ele a odiou. Talvez ainda odiasse agora. Odiava a maneira com que ela era inocente e pura, odiava seus olhos grandes e verdes, odiava sua voz fina e infantil, odiava até mesmo a maneira com que ela piscava e suspirava. Tudo nela parecia perfeito para Tomaz. Uma perfeição perturbadora, que não poderia ser normal. Ele sabia que ela fingia. Era uma farsa. Por isso, a odiava. A odiava por enganar a todos, às vezes até mesmo ele, com sua perfeição e seu jeitinho angelical. Ela não era um anjo. Talvez fosse exatamente o contrário.

            Tomaz sentia inveja. E ciúme. Mal podia conter todos esses sentimentos, que o engoliam e sufocavam. A mãe sempre a tratou como um ser divino, como alguém a ser adorada e amada acima de tudo. E ele, nada era. Um incômodo, um fardo, alguém que não deveria ter nascido. Ele nunca entendeu por que a mãe o odiava tanto assim. Ela começou tratando-o assim, com ódio, até chegar no estágio atual, de pura indiferença. Ele só queria que as coisas voltassem a ser o que eram. Que ele fosse algo na vida dela, que ele ocupasse seus pensamentos. Que ela o odiasse, ou o amasse. Se ela só era capaz de sentir ódio em relação a ele, que assim fosse. Era melhor do que não sentir nada.

            Ele já era quase um adulto. Mas às vezes se sentia como uma criança carente. Ele amava a mãe mais do que tudo. Só queria ser visto por ela, ser tocado por ela, ser amado por ela. Mas ela não o oferecia nada. Ele não era digno.

            Ingrid o tomou tudo. Tudo o que ele sequer nunca teve. Ele queria, de certa forma, ser como ela. Ser ela. Mas não podia. Aquele pacto era mesmo muito conveniente. Ele iria se livrar do que mais o causava sofrimento. De certa forma, seria um alívio.           

            – Onde estão os amigos? Por que eles estão no frio e no escuro? – Ingrid perguntou.

            – Eu preciso que você seja corajosa. – Tomaz afirmou, soltando a mão dela.

            Ele também precisava ser corajoso. Tomaz carregou a irmã em seus braços. Ingrid protestou e fez muitas perguntas, confusas e baixas demais para serem compreendidas, mas Tomaz pediu que ela ficasse em silêncio. Deu poucos passos e soube que estava no lugar certo. Ouviu a voz de Billy, chamando-o.

            – O que você está esperando? – Billy perguntou.

            Mas Tomaz não iria hesitar. Havia ido longe demais para voltar atrás. Deveria dizer algo a Ingrid? Palavras de despedida ou de conforto? Ou deveria ligar a lanterna, para que ela pelo menos pudesse ver o que estava acontecendo?

            – Ela precisa ver de verdade. – encorajou Billy.

            Tomaz respirou fundo. E então soltou Ingrid, como se estivesse soltando um dos passarinhos sem vida, diretamente no poço, de encontro ao seu amigo que esperava na escuridão. Ingrid gritou, mas aquilo não atingiu o irmão. Ele acreditava ter tido um último ato de bondade em relação a ela, não contando o que realmente estava acontecendo. Não se despediu, não deixou que ela visse o que a aguardava. Ela morreria sem saber, sem entender. Morreria como viveu a vida: no escuro, sem enxergar e sem compreender nada. Talvez ela nem soubesse que morreu. Talvez ela caísse para sempre no poço sem fundo, completamente ignorante. Assim, ela não sentiria dor.

            Tomaz pensou no sorriso de Ingrid e em como a vinha odiando todo esse tempo. Agora, o ódio havia ido embora. Só restava o vazio, e essa era a sensação que ele mais odiava.

            – Eu fiz, Billy. – ele disse para o poço.

            E pensou no que faria em seguida. Tinha que voltar para casa, pois era o único lugar que conhecia. A noite estava longe de acabar e muitas coisas aconteceriam, ele pressentia. Havia cumprido com sua parte no pacto e agora colheria as consequências. Pensou no pai, na sua figura imponente e no seu sorriso caloroso. Iriam se reencontrar. Pensou em como as coisas agora voltariam a ser o que eram, antes de tudo. Já havia feito a sua parte: Ingrid não existiria mais para roubar tudo o que ele possuía. Agora seriam só ele, o papai e a mamãe. Uma família feliz.

            Ele não sentia remorso pelo que fizera, nem entendia que havia sido errado. Assim como enterrou seu cachorrinho vivo, ou matava os pássaros e os jogava sem vida no poço, ele não entendia o peso de uma vida. Não compreendia bem o conceito da morte. Na verdade, para ele, não havia nenhum tipo de julgamento. Ele não encarava o que fazia como certo ou errado, divino ou diabólico. Ele só fazia, seguindo seus instintos e uma urgência dentro de si de tomar o controle. Ele podia ser nada. Ninguém. Mas se sentia todo poderoso quando tomava uma vida. Ele não era assim tão insignificante, pelo menos não para Ingrid, pois havia decidido o destino dela. Havia colocado um ponto final em sua história. Então, para irmãzinha, ele seria como Deus. O ser mais importante em sua vida, que decide o que vai ou não acontecer e quando tudo deve acabar.

            Mas ele tinha pensamentos conflitantes. Sentiria saudades de Ingrid, assim como sentiu de Billy, seu cachorrinho. Sabia que eles não iriam mais voltar. Mas por que é que não conseguia sentir culpa? Era só... Algo que aconteceu. Aconteceu. Acontece.

            A morte era tão natural quanto a vida. Se uma pessoa pode escolher dar à vida, por que ela não poderia escolher tirá-la? A mãe de Tomaz havia escolhido dar vida a ele. Então, de certa forma, ela havia contribuído para morte de Ingrid. Por que ele estava pensando coisas tão estranhas? Talvez estivesse impressionado. Mas não sentia medo. Nem do que acontecera, nem das consequências que seus atos trariam. Ele sabia que estava certo.

            – Muito bem, amigo. – Billy respondeu do poço, encorajando-o.

            E então Tomaz voltou a caminhar na escuridão, em direção à casa, acompanhado do mesmo silêncio avassalador de antes. Não havia gritos, não havia nenhum outro tipo de som. Era isso que significava a morte. Silêncio eterno. Para alguns, um incômodo. Para outros, conforto.

 

            Antes que pudesse entrar na casa, Tomaz ouviu um grito que misturava ódio e horror. Demorou para distinguir a silhueta da mãe, mas reconheceria de longe aquele perfume de flores. Adorável, como tudo nela. Tomaz a amava muito. Tanto, que não se assustou com aquele grito horrendo que ela soltou. Só entendeu o que estava acontecendo quando ela o segurou pelos braços, sacudindo-o com uma força recém adquirida, que não parecia ser dela.

            – Onde ela está? – ela gritava em desespero. – Onde ela está?

            Tomaz sabia bem do que ela estava falando. Queria aliviar a tensão, então respondeu num tom leve e despreocupado.

            – Ela quem?

            Aquele foi o gatilho para que a mãe sentisse ainda mais raiva. Tomada pelos seus sentimentos, ela o deu um tapa forte no rosto. Era tudo tão silencioso, que tudo o que conseguiam ouvir era o som do tapa e os grunhidos da mãe, tomada pelo ódio. Tomaz se sentia alheio a tudo, como se aqueles sons estivessem distantes. Como se viessem do fundo do poço.

            Ela se afastou dele, com a mão ainda erguida, como se estivesse em choque e o seu toque queimasse. Uma luz forte a iluminou por completo e Tomaz estudou sua figura. A mãe era uma mulher jovem e bela; havia engravidado quando menina ainda, e mesmo com o tempo e o sofrimento, continuava lindíssima. Tinha os cabelos castanhos e cacheados, os olhos verdes e uma pele morena. Ingrid só havia puxado dela os olhos; de resto, em nada se pareciam. A áurea que as envolvia também era diferente. A mãe não tinha aquela inocência, aquela ingenuidade de quem não sabe de nada. Pelo contrário, tinha um ar de sofrimento, de quem viu e ouviu demais e muito cedo. Era uma mulher com muitas experiências, que guardava diferentes dores em seu coração. Mas, acima de tudo, era uma mulher que se expressava livremente. Transparente, um livro aberto. Se sentia qualquer coisa, ela exteriorizava aquilo de forma muito sincera. Nunca escondeu o que sentia pelo próprio filho. Não gostava dele. Mas ele a amava.

            A luz forte a iluminou, e Tomaz ficou fascinado. Ela parecia um anjo, mesmo que gritasse e tivesse uma expressão contorcida pela dor. Ela sabia o que tinha acontecido. Ele sabia que ela sabia. Mas ela queria ouvir da boca dele. Tomaz nunca conseguiu enganar a mãe, nem mesmo quando criança. Ela o conhecia mais do que ninguém.

            Tomaz seguiu a luz e notou que vinha de um farol de carro aceso. O carro havia acabado de estacionar, muito próximo a eles, mas não desligou o farol. Ele não reconheceu o carro no escuro. Quem poderia ser, num momento inadequado como aquele? No meio da noite? A mãe pouco pareceu se importar. Queria respostas.

            – Eu só irei perguntar uma vez, Tomaz. O que você fez?

            Tomaz olhou para os lados, nervosamente, evitando o olhar de fúria da mãe. Ela continuou, a voz cada vez mais séria:

            – Eu perguntei: o que você fez?

            – Ele... – Tomaz começou, mas foi interrompido.

            – Não me venha com essa sua conversa idiota de amigo imaginário. Ele sempre te mandou fazer as coisas, certo? Nunca foi você, com essa sua mente doentia, que fez algo. Sempre ele, ele, ele... Como é o nome mesmo?

            – Billy.

            – Billy. – lágrimas escorriam do rosto da mãe. Ela estava sendo novamente sincera com seus sentimentos, mas o mais estranho era que não parecia frágil. Pelo contrário, naquele momento tinha uma força descomunal dentro de si. – Você não é mais uma criança, Tomaz. E amigos imaginários são isso... Coisas da sua imaginação. Ele não existe.

            – Você nunca acreditou em mim.

            – Você quer que eu acredite em você? Então traga sua irmã de volta. Eu quero ela aqui, e agora. Que merda você fez?

            – Ela não vai voltar. – ele disse apenas.

            – O que você quer dizer? – ela sabia muito bem a resposta, mas estava em choque.

            Tomaz reuniu toda a sua coragem para contar a verdade à mãe. Poderia mentir para qualquer um, menos para ela. Ela sempre saberia a verdade, porque podia ver através dele. Então, ele inspirou profundamente, relembrando os acontecimentos. Pareciam distantes, coisas de meses ou anos atrás, mas era tudo muito recente. Ele não podia desfazer o que fez, nem desejava. Ele fez o certo.

            – Ela está no poço. Com Billy.

            Os olhos da mãe se arregalaram. Ela prendeu a respiração por alguns segundos. Era como se visse o filho pela primeira vez em anos.

            – Eu a joguei no poço. – Tomaz continuou, escolhendo as palavras que pareciam certas. Em nada aquilo ajudava. – Me escute...

            – Você fez o quê? – ela gritou.

            ­– Ela não está sozinha, ela não sabe de nada... Ela vai ficar bem...

            – Besteira! Tudo o que você diz é mentira e uma idiotice! Nem mesmo você acredita nessas palavras, não é? Você simplesmente... Matou a sua irmã?

            – Era a coisa certa a se fazer...

            – Quem foi que disse? Billy? Cale a boca, seu monstrinho...

            A discussão calorosa dos dois foi interrompida por um som de buzina. Só então eles se lembraram do carro estacionado, e de que não estavam sozinhos. Os dois olharam na direção do veículo, assustados.

            – Você... Chamou alguém? – a mãe perguntou. Sua voz tremia um pouco. Dava para ver que ela estava assustada. – Ou é um dos seus amigos imaginários?

            – Mamãe, eu não te contei tudo...

            A mãe olhou do carro para o menino, tentando entender o que estava acontecendo. Não conseguia identificar quem estava no banco do motorista, com toda aquela escuridão. Começou a se aproximar do carro, temendo o pior. Mas era destemida como o filho. Tinham medo, sim, mas isso não os impedia de fazer o que era necessário. Tomaz, no fundo, sabia quem era o convidado misterioso. Mas ficou ali, paralisado, vendo a mãe se aproximar lentamente.

            Quando ela, por fim, chegou bem perto do carro, ela o reconheceu. Mas não podia ser. Não, não podia ser. Estava tudo muito escuro, ela estava confusa e assustada. Mesmo assim, aproximou o rosto da janela. E o que viu fez com que gritasse.

            Tomaz ficou paralisado. A mãe voltou correndo, sem fôlego, e segurou a mão dele com urgência. Tomaz não se lembrava da última vez que ela havia segurado sua mão, mas não havia nenhum sinal de carinho naquele gesto, apenas medo, raiva e desespero. Ela o puxou, mas Tomaz resistiu. Era como se estivesse num transe.

            – Escute bem. – ela disse, olhando no fundo dos olhos do filho. – Resolveremos isso. Eu te dou certeza que resolveremos. Mas agora, você precisa vir comigo. Rápido.

            – O que está acontecendo? – ele perguntou.

            – Você não é o único monstro aqui. Me siga, rápido.

            A voz dela era muito séria e convincente. Ela o puxou novamente, com aquela mesma força assustadora de antes, e Tomaz obedeceu. Quem quer que estivesse no carro, não moveu um músculo e continuava lá dentro, observando-os. Esperando o momento certo para agir.

            Os dois correram para dentro do casarão. A mãe fechou a porta atrás deles e a trancou com mãos trêmulas. Ordenou que o filho trancasse todas as janelas e ele o fez. Enquanto fechava uma por uma, ele sentia um medo avassalador. Não sabia bem do que, ou por quê.

            – Eu tive um sonho. Durante os últimos anos... Desde... Você sabe. – ela confessou, a voz trêmula. – Eu venho tendo esse mesmo sonho. Estou em casa, sozinha. E tranco todas as portas e janelas, com urgência, porque tem algo lá fora que eu quero evitar. Eu nunca dei muita atenção a esse sonho... Ou melhor, pesadelo. Mas ele sempre voltava, e eu sempre acordava com medo de algo que não conhecia. Era um sinal. Eu buscava interpretá-lo. Talvez eu estivesse com medo do desconhecido. Ou de todos os monstros do lado de fora, dos quais eu teria que me proteger. Às vezes, esse mal do lado de fora tomava forma... Às vezes era uma pessoa. Às vezes uma criatura. Mas sempre estava lá, olhando para mim, esperando por mim... E finalmente está acontecendo essa noite. Meu maior medo, tornando-se realidade. Eu não sei se posso dizer que é tudo culpa sua. Talvez isso tivesse que acontecer, de um jeito ou de outro.

            Tomaz engoliu em seco. Eles não costumavam conversar assim, mas agora era uma situação completamente diferente. Na verdade, parecia que ela falava mais sozinha do que com ele. Ele começou a pensar nas coisas que fez. Ainda não conseguia sentir culpa, nem que estava errado. Qual era o problema com ele?

            Ele não queria vê-la tão assustada. Não queria vê-la chorar. Ele só queria... Ser visto.

            – Não importa o que aconteça, não abra. – ela o alertou, quando terminaram de trancar o andar de baixo.

            – O que você viu, mãe? – ele perguntou, sabendo já a resposta.

            – Meu pesadelo.

            Ele achou melhor não perguntar mais. Ela estava extremamente nervosa e em choque. Era de se impressionar que não tivesse surtado de uma só vez, dada a situação em que se encontravam. Ela não teve tempo de processar seu luto, porque algo assustador estava acontecendo. E a sobrevivência sempre fala mais alto do que qualquer outra coisa.

            Tomaz notou que estava tremendo dos pés à cabeça. Sentia muito frio. Estava com medo? Talvez não tivesse percebido. Olhou mais uma vez para a mãe, feliz por estar próxima a ela, por ela estar olhando para ele e falando com ele, mas ao mesmo tempo com medo. Ainda não sabia do que.

            – Mamãe... – ele chamou.

            Ela parou de andar de um lado para o outro e o olhou, finalmente. Seus olhos verdes estavam mais escuros e sombrios do que de costume. Mas eles brilhavam. Ele sabia que havia conseguido o que queria. Mas de modo diferente.

            – Mamãe, eu fiz uma coisa. Eu tenho que te contar uma coisa.

            Os dois ouviram batidas fortes na porta. De início, eram só batidas, mas começaram a se tornar tão fortes que sacudiam a porta e o som reverberava pela casa. Não era algo que um humano conseguisse fazer. Mas o que os esperava do lado de fora não era mesmo humano. Ele queria entrar.

            A mãe fechou os olhos e respirou fundo. Parecia prestes a ter um ataque de pânico. Olhou no fundo dos olhos de Tomaz e controlava a urgência de puni-lo por todas as coisas erradas que ele fez.

            – O que você fez, Tomaz?

 


Sem comentários:

Enviar um comentário

Sponsor