sexta-feira, 9 de outubro de 2020

O mal dentro de mim - Parte 1

 


    Era uma noite como qualquer outra. Com a chuva que se aproximava, nada de estrelas no céu. Uma noite escura e agradável, nem um pouco incomum. A família dormia silenciosamente na casa enorme, cheia de quartos, mas que acolhia apenas três membros. A mãe dormia no quarto principal e maior deles, sozinha numa cama fria. O marido havia falecido há alguns anos, e então tiveram que refazer toda uma rotina e reinventar uma vida inteira. Ela nunca teve medo de morar numa casa tão grande e tão afastada de tudo. Era uma mulher forte. Teve que se tornar uma, agora que estava sozinha.

    Tomaz dormia no quarto de frente ao de sua irmãzinha, Ingrid. Fazia pouco tempo que a menina havia conseguido um quarto só seu, já que por muito tempo havia dormido ao lado da mãe, na cama de casal. Agora ela estava crescendo e precisava aprender a dormir sozinha. Ela não era mais um bebê, mesmo que a mãe não percebesse aquilo. 

    Era extremamente conveniente que todos estivessem com as portas fechadas. Seria bom se tivessem um sono pesado também. Tomaz sabia: era durante a noite que as melhores decisões eram tomadas. Ele havia tomado a dele.

   O rapaz continuou deitado, de olhos fechados, prendendo a respiração. Parecia que ninguém iria flagrá-lo em sua aventura. A verdade era que ninguém se importava. Levantou-se, já todo vestido e de sapatos, e se esgueirou pela casa com o coração apertado, temendo ser descoberto em sua fuga temporária. Mas ninguém se deu conta. Se ele fosse embora daquela casa para sempre, será que alguém sequer notaria? Será que sentiriam sua falta? Era difícil saber. Talvez valorizassem o que já não possuíam mais.

    Ele já estava fora da casa. Não tinha mais o que temer. Então por que se sentia tão amedrontado? Talvez fosse o peso de suas escolhas. Ele chegou até o lugar indicado, depois de correr um pouco. Não era longe de casa. Era uma estrada de chão completamente abandonada. Sabendo o que estava prestes a fazer, Tomaz também a achava sombria. Havia ouvido falar daquele lugar através dele. Seu amigo no poço.

    Perto de casa, havia uma floresta que, na infância, era seu jardim privado. Tomaz a desvendava e se aventurava em suas fantasias, por isso a conhecia como a palma de sua mão. Depois de muito tempo, ele continuava indo até lá. Não mais para suas explorações, mas para encontrá-lo. O conheceu quando tinha apenas 7 anos. Encontrou, por um acaso, um poço escondido pela floresta. Aproximou-se cheio de curiosidade, e animado como se tivesse encontrado um tesouro. O poço era grande e incrivelmente profundo. Olhando para baixo, o menino só podia ver a escuridão. Ele imaginava o quão profundo era, jogando pedrinhas e era incapaz de ouvi-las alcançar o fundo. Gostava de imaginar que aquela era uma passagem para outro universo. Mas tinha um senso de sobrevivência, e por isso nunca se jogou. Muito menos quando descobriu que não estava sozinho.

    Tomaz encontrava conforto na escuridão do poço. Passava ali horas a encarando, esperando por respostas que as pessoas se recusavam a dá-lo. Como, por exemplo, por que ele sentia todas aquelas coisas estranhas. Às vezes, ele matava passarinhos e os jogava no poço. Não sabia bem por que fazia aquilo, mas sentia uma estranha satisfação, quase como se estivesse fazendo um favor aos pássaros, mandando-os para outra dimensão. O poço se tornou um portal de almas. E Tomaz chamou, chamou e chamou. Até que, por fim, um dia ele atendeu.

    Ele ouviu uma voz de menino respondendo de volta. Perguntou pelo nome. A voz respondeu: “Eu tenho muitos nomes”. Então, Tomaz decidiu chamá-lo de Billy, o nome do seu primeiro cachorrinho, que havia falecido há um tempo. Todos os dias, Tomaz retornava ao poço para conversar com Billy. Os dois falavam de tudo e Billy se tornou seu melhor amigo, mesmo que não tivesse rosto e fosse apenas uma voz na escuridão. Tomaz nunca contou nada a ninguém, pois Billy o alertou: se contasse, acreditariam que ele estava louco. Tentariam destruir a amizade dos dois. Então, seria um segredo.

    Tomaz agora não era mais nenhuma criança. Mas continuava indo ao poço e conversando com Billy, seu amigo de infância, que tinha a mesma voz infantil, mas que era extremamente inteligente e parecia saber de tudo. Todas as perguntas de Tomaz tinham uma resposta. E, mesmo que o tempo passasse, a voz de Billy permanecia a mesma, como se ele não fosse tocado pelo tempo. O pai de Tomaz havia falecido, mas Billy dizia que Tomaz nunca estaria sozinho enquanto fosse visitá-lo. Sua irmãzinha havia nascido pouco depois da morte do pai, que ela nunca conheceu. E então as coisas se tornaram ainda mais estranhas. A mãe se transformou mais ainda. E Ingrid se tornou seu mundo, sua razão de viver. As duas eram inseparáveis. E, naquele amor todo, não havia espaço para Tomaz. Ele só tinha Billy.

    Por isso, há alguns dias, Billy havia dito a Tomaz que teve uma ideia.

    – Eu conheço alguém que pode resolver todos os seus problemas. – a criança afirmou.

   Tomaz seguiu as instruções religiosamente, e agora ali estava. Billy deu as direções e ele apenas as seguiu. Sabia também o que fazer. Mas não sabia o que aconteceria. Ele estava desesperado. E, quem quer que fosse encontrá-lo, sentia o cheiro de desespero. E o gosto.

    Ele não esperou mais do que alguns minutos. Viu ao longe um manto preto, cobrindo uma silhueta que parecia ser feminina, mas que, estranhamente, não parecia humana. A criatura foi se aproximando, com o manto se arrastando no chão. Aquela era mais uma escuridão que Tomaz teria que enfrentar, mas não trazia conforto como a outra. Era, pelo contrário, sufocante e assustadora.

    Quando a criatura se aproximou, Tomaz se sentiu enojado. Ela tinha cheiro de carne crua, mistura com litros de perfume barato e doce. Um cheiro extremamente peculiar e desagradável. Ela estendeu o braço, revelando uma mão de mulher com unhas muito cumpridas e vermelhas. O cheiro se tornou mais forte. Ele segurou a vontade de vomitar.

      – Você esteve procurando por mim, Tomaz? – a voz perguntou.

    Também era uma voz de mulher, rouca e estranhamente atraente. Era uma mulher, ele tentava acreditar. Mas algo nele dizia que, por detrás daquele manto, havia algo terrível. Ele olhou para o braço dela estendido, a mão de pele morena e as pulseiras tilintando no pulso.

    – Como sabe meu nome? – ele perguntou. Sua voz saiu mais tremida do que ele esperava.

    – Eu conheço você por muito tempo, Tomaz. Eu sei tudo sobre você.

    Ele engoliu em seco. Fazer perguntas não era o certo agora. Ele havia compreendido o tom de voz dela, intimidador, que o fazia engolir todos os seus questionamentos. Estava claro que era ela quem tinha o controla da situação.

     – Não se lembra de mim? – ela perguntou.

    De repente, a mente de Tomaz foi invadida por uma memória desagradável. Ele já era um adolescente e estava sozinho em casa. Billy havia o ensinado uma brincadeira, que era apenas para rapazes corajosos. Tomaz era corajoso. Ele fechou a porta do quarto e apagou todas as luzes. Estava acostumado à escuridão. De alguma forma, conseguia se ver nela. Então, respirou fundo e disse em voz alta:

    – Quem está aí?

    Nenhuma resposta. Ele continuou, reunindo toda a sua coragem.

    – Você está aí?

    Silêncio absoluto. Como orientado, ele caminhou até a porta. Colocou o ouvido ali e voltou a fechar os olhos. Ouviu uma respiração lenta, que ia se acelerando aos poucos, até se tornar uma respiração pesada e ofegante. Como se, do outro lado da porta, houvesse um animal, uma besta. Tomaz se afastou e disse com firmeza:

    – Entre.

    E então abriu a porta. Não havia ninguém.

    Seria aquela mulher? Aquela... Criatura? Para confirmar suas suspeitas, ela falou:

    – Você me convidou.

    Tomaz engoliu em seco e ouviu uma risada abafada. Pelo menos para alguém aquilo era divertido.

    – O que você quer? – ela perguntou, indo direto ao ponto. – O que você quer tão desesperadamente?

    Ele sabia bem o que era. O que seu coração mais desejava agora, desde sempre. Ele queria ter coragem para dizer em voz alta. Colocar em palavras seus desejos mais profundos e desesperados. Mas era incapaz, porque era difícil admitir até para si mesmo. Por isso, substituiu seu real desejo por outro semelhante. Ele queria que as coisas voltassem a ser o que eram antes.

    A figura à sua frente continuava estática e, mesmo que Tomaz não pudesse ver seus olhos, ele sabia que estava sendo intensamente observado. Aquilo só o deixava ainda mais nervoso e sob pressão. Mas tinha uma escolha a fazer e não podia voltar atrás agora. Já tinha ido longe demais e disso ele sabia. Lembrou-se dos tempos em que o pai era vivo e eles eram uma família feliz. E então, uma série de acontecimentos desagradáveis veio. A morte súbita do pai, que por algum motivo ele não conseguia se lembrar com clareza. Só se lembrava dos olhares esquisitos e tristes, e dos sussurros pela casa. Foi aí que a mãe se transformou por completo e passou a tratá-lo como se não fosse mais do que um inseto incômodo. Ele era bem parecido com o pai, pelo menos fisicamente. Talvez olhar para Tomaz fosse um lembrete a ela do que havia perdido.

    E então Ingrid nasceu. Uma criança lindíssima, perfeita, com os cabelos encaracolados e claros. Olhava para todos com aqueles grandes e bonitos olhos verdes, cheios de pureza e inocência. Ingrid era um verdadeiro anjo para todos que a conhecessem, com a delicadeza presente não só na aparência, mas também em sua personalidade. Ela tinha uma voz doce e encantadora, que convencia a todos de que seus desejos eram prioridade. Por isso, ela conseguia, sempre, tudo o que queria. Tomaz acreditava que aquilo era manipulação, mas ninguém concordaria com ele. Uma criança tão doce e bondosa não seria capaz de ter nenhum tipo de pensamento maldoso.

     A mãe tratava a menina como se ela fosse uma preciosidade. Tomaz se lembrava de tê-la visto muitas vezes no quarto de Ingrid, mesmo depois da menina já não ser mais um bebê, observando-a dormir de pertinho, conferindo sua respiração. Quando menor, Ingrid e a mãe dormiam sempre juntas, abraçadas na cama grande de casal. Agora, a mãe dava um pouco de liberdade à filha, mas continuava agindo como se ela fosse uma boneca de porcelana, prestes a se quebrar. O que ela mais temia era que alguém tocasse sua preciosidade e a corrompesse com a sujeira do mundo. Por isso, Tomaz era impedido de ficar muito próximo à irmã, pois ele nada mais era do que um pecador.

    Ele não entendia bem por que era tratado daquela forma. A mãe sabia? Ela havia reparado? Tomaz não via nada de errado em seu comportamento. Não conseguia entender por que não podia simplesmente fazer o que fazia. Os passarinhos mortos, jogados no poço. E Billy, seu amigo imaginário que o instruía a fazer coisas. Mas aquilo não era tudo.

    Tomaz se lembrou de Billy, o verdadeiro dono do nome, o cachorrinho que ele ganhara quando era muito pequeno. Lembrava-se, também, do que havia realmente acontecido com ele. Tomaz encontrou o cãozinho depois de um dia inteiro buscar por ele. Billy estava machucado no meio da estrada, sangrando. Era um cachorro livre, que sempre corria pelos arredores sem muita preocupação de seus donos. Tomaz entendeu que ele havia sido atropelado, mas quem quer que tivesse feito aquilo, não havia ficado para ajudar.

    Billy ainda estava vivo, mas muito machucado. Tomaz ficou apavorado e não sabia o que fazer. Carregou o cachorro pela floresta, assustado e culpado, como se fosse ele que o tivesse ferido, e não um covarde qualquer. Temia ser flagrado, como se estivesse fazendo algo muito errado. Então cavou. Cavou por longas horas, até estar exausto, e ter feito uma pequena cova improvisada para seu amigo. Deitou Billy cuidadosamente no buraco, fez uma pequena despedida e começou a jogar terra por cima. Ele ainda se lembrava de dar uma última olhada para o cachorro, que o olhou de volta, com os olhos inocentes e brilhantes de quem não reconhece nada de mal no mundo. De quem não sabe que vai morrer.

    – Poderíamos ficar aqui por toda a eternidade. – disse, por fim, a criatura, fazendo com que Tomaz despertasse de seus devaneios e voltasse à realidade nua e crua.

    Ele estava ali, no meio da estrada de terra deserta, acompanhado de um ser encapuzado com cheiro de carne crua e podre. Ele tinha que dizer, em bom e alto tom, o que ele mais queria. E então fechar um acordo com ela, pegando naquela mão sombria e assustadora. Tomaz respirou fundo e chegou à conclusão:

    – Eu quero que meu pai viva novamente. – disse, por fim. Continuou, reforçando a ideia e convencendo a si mesmo. – Eu quero o meu pai vivo, comigo.

    Tomaz ouviu uma risada abafada. Aquilo era um tipo de piada? Ela sabia de algo. Ou talvez soubesse de tudo. Por fim, a criatura voltou a estender a mão e, mesmo que ele não pudesse ver seu rosto, ele pôde imaginar um sorriso malicioso.

    – Não há nada que eu não possa fazer. Você é bem ambicioso. Eu gosto disso.

   Tomaz assentiu, segurando a mão dela com firmeza. O toque era gelado e desagradável, lançando calafrios por todo o corpo do rapaz. Ouviu outra risada.

    – É isso? – ele perguntou quando os dois soltaram as mãos. – Acabou?

    – Não, não... – ela respondeu. – Está só começando.

    Tomaz ouviu com horror da criatura misteriosa de que aquilo não era um ato de caridade, mas um pacto. E para que um pacto seja o que é, é necessário haver um preço. Um acordo não pode ser vantajoso para apenas uma das partes. Por isso, ele deveria fazer uma coisinha para ela.

    Enquanto corria de volta para casa, podia ouvir na sua mente a voz de Billy, seu amigo, e não o cachorro, aconselhando-o. “Vai ficar tudo bem”, ele dizia. “Só faça o que foi dito”.

    E ele fez.

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