quinta-feira, 27 de maio de 2021

Suspiro - Parte 3

 

Parte 3

            Depois que bebi o café, outra sensação me invadiu. Algo felpudo e quentinho passava por minha perna, fazendo cócegas. A visão a qual eu nunca tive acesso, que eu tinha através da janela, já não era mais meu foco. Olhei para o chão. E tive certeza: esse era o sonho mais agradável de todos.

            Uma criatura pequenina me encarava de volta, com seus olhos imensos e azuis. Nem mesmo o oceano, ou o céu, poderiam ser tão belos quanto aqueles olhos. Não poderiam sequer se comparar. O azul mais puro, mais brilhante e mais envolvente, que amolecia meu coração instantaneamente. Observei o seu rostinho com afeição. O narizinho rosado, os bigodes compridos, a boca já se abrindo para emitir um miado.

            — Gatinha! – exclamei no sonho, e foi a primeira vez que ouvi a minha própria voz.

            Parecia distante, baixa, ecoando... Eu não a reconhecia. E então a criaturinha, cujo nome era Gatinha, se enrolou mais uma vez na minha perna, miando mais alto. Ela era branca e peluda, com as patinhas cor-de-rosa e os olhos azuis. Suas cores me invadiam, assim como a sensação de seu pelo contra a minha pele. Me abaixei, até ficar da sua altura, e ela logo pulou no meu colo, ronronando.

            Seu nome não era dos mais criativos. Não conseguia me lembrar por que um dia pensei que seria genial nomear uma gata pequena como Gatinha. Ela merecia um nome melhor; mas pelo menos tinha um nome. Eu tinha um também, nessa época. Hugo. Agora ninguém me chamava pelo nome. Porque ninguém precisava de nomes.

            Eu era alguém. Um dia fui alguém. Mas eu mudei.

            Gatinha era minha companheira. Mas não víamos mais animais ao nosso redor. Nosso mundo era completamente hostil a animais, selvagens ou domesticados. Víamos fotos, vídeos, chegávamos a interagir com animais-máquinas, mas nenhum deles se parecia com Gatinha. Eles eram programados para agir como animais, mas não eram animais. Eram, portanto, uma ilusão.

            Talvez nós, homens, fossemos também assim. Cópias de seres humanos. Consciências humanas aprisionadas em corpos falsos. Mas nada havia a ser feito. O ponto de partida já não era mais o mesmo. Se voltássemos ao que um dia fomos, não seríamos mais seres humanos. Acho que já não éramos mais, mesmo agora.

            Podemos chamar as coisas como quisermos. Mas quando elas mudam, já não são mais as mesmas. E Gatinha, que poderia se chamar qualquer outro nome, era única no mundo. Eu sabia que, se colocassem um gato com mesma aparência na minha frente, eu não seria capaz de confundir. Porque cada criatura em nosso universo é única. E reconhecê-la era fácil: o que fazia Gatinha ser diferente de qualquer gato de rua, era o que eu sentia por ela, e ela por mim. Nossa relação nos construía.

            Eu sentia falta dos animais. Da família de uma espécie diferente. E sentia falta, principalmente, de ser o lar de alguém. Coisas que nunca foram, nem nunca seriam necessárias. Mas que eram diferenciais.

            Olhei pelo vidro e a noite parecia a mesma. O silêncio, que sempre foi meu companheiro, agora era excruciante. Não havia nenhum tipo de som. As máquinas eram silenciosas e nós, homens, mais ainda. Nem mesmo a natureza ousava ser barulhenta: não havia som de vento ou qualquer outra manifestação de que as coisas estavam vivas. Estavam mudando. Em constante transformação, o mundo girava. Mas a Mudança era silenciosa e implacável. Impiedosa. Sua maior crueldade era agir em silêncio, sem fazer alarde, até que nos acostumávamos com ela. Não notávamos sua presença ou sua ação. E um dia, soltávamos um suspiro. E então a força gravitacional do mundo parava de funcionar. E ele desabava, de uma só vez, em nossas cabeças.

            23:53

            Não adiantava o quanto eu olhasse para fora, não iria amanhecer. A noite estava longe de acabar. Parecia ter se passado, pelo menos, algumas horas desde meu primeiro sonho acordado. Talvez alguns dias, ou mesmo uma semana? Foram tantos sentimentos, tantas reflexões, tantas sensações e tantas, mas tantas dúvidas. Mas não. Só se passaram três minutos.

            O tempo se arrasta quando se tem a eternidade. O tempo vira algo abstrato, confuso e, quem sabe, desnecessário?

            Perdido nas minhas lembranças, eu já não sabia o que havia acontecido primeiro: o café, a Gatinha, o piano? Ou o contrário? Ou quem sabe uma ordem completamente diferente? Eu não poderia saber, ao certo, quando tudo aconteceu. Ou se aconteceu mesmo assim. As lembranças não são lineares, mas idas e vindas constantes. E não são separadas, divididas, mas se misturam, se confundem e se tornam uma coisa só.

            Sonhei ou me lembrei? Inventei ou retornei ao passado?

            Aquilo nunca havia me acontecido. Eu nunca questionei nada, nunca me perguntei como seria retornar ao que um dia já tivemos. Porque a nossa ideia era de que a caminhada deveria ser sempre à frente. Quem foi que disse que não podemos, de vez em quando, andar para trás? E quem disse que o futuro seria mais brilhante, mais promissor e mais feliz, quando algumas das respostas estão no passado?

            Eu queria voltar?

            Não. Porque já mudei. E se voltasse, já não seria mais o mesmo. E mudaria de novo. Eu não era diferente, não era especial. Eu mudava, porque o que fazia com que eu fosse quem realmente era, era isso: a minha capacidade de mudar. Eu me transformava a cada situação, a cada momento, a cada segundo! E eu não tinha escolha.

            Nenhum de nós tem.

            No dia seguinte, voltaria a viver normalmente. Não deixaria de me movimentar. Mas ia sentir saudades.

            Sei que, um dia, bastou bem pouco para que o mundo girasse mais rápido. Foi uma fala, uma ação, uma escolha. Um sopro de vento. Lá fora, as luzes brilhavam com mais força, num silêncio absoluto. Era tudo o que eu conhecia. A eternidade, que se tingia de branco.

            23:54

            Os sonhos acabaram. Meu momento também já passou. Talvez nunca volte. Não estou com medo do que o futuro nos reserva. Nem medo de me esquecer de tudo, de quem sou ou até mesmo do nome que um dia tive. Não estou com medo de fazer escolhas, de optar pelo que acho melhor para mim, ou mesmo para a humanidade.

            Talvez, não sejamos nós os culpados por caminhar sempre para frente, sem olhar para trás. Talvez, aquele seja o único caminho possível. Avançar, avançar, avançar.

            Um último suspiro nunca viria. Mas um pouco da vida em mim escapava a cada lembrança, ou sonho. Viver para sempre era também morrer eternamente.

            E assim, tudo mudou.

            Bastou um suspiro.


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quinta-feira, 20 de maio de 2021

Suspiro - Parte 2

 


             Parte 2

            Naquele dia, que parecia pertencer a uma realidade paralela, eu toquei piano. Toquei de leve as teclas, lentamente, e ouvi a melodia doce. E então parei. Me levantei e fui até a janela. Não consigo me lembrar do que vi através dela. A paisagem do mundo antigo tinha sido praticamente esquecida. Víamos mídias que as mostravam em nossos dispositivos, quando estávamos estudando algum assunto ou por mera curiosidade. Mas não havia uma única memória viva em mim sobre o que me cercava.

            Minhas memórias eram mais internas, tímidas, lentas e suaves. Pareciam quentes, mas eu não sentia nada do tipo ao lembrar. Ou sonhar. Mas eu me lembrava da sensação quentinha, quando segurei uma caneca e fui até a janela, carregando-a junto ao meu peito. Não sei para onde estava olhando até então, mas olhei para o que segurava. Pude ver minhas mãos novamente. E a caneca marrom, com o líquido preto e quente lá dentro.

            Observei, como se estivesse alucinando, a fumacinha que saía da bebida. O seu movimento em câmera lenta, assim como o mundo ao meu redor. O cheiro era agradável. O toque também. Era quente e reconfortante. Levei a caneca aos meus lábios e quase queimei a língua. Mas então o sabor me invadiu.

            Não comíamos mais. Não precisávamos nos alimentar para sobreviver. Eu não sentia gosto de algo há anos. Mas senti naquele momento, ao recordar. Foi fantástico.

            Os seres humanos sempre viram mais significado na comida do que simplesmente sobrevivência. Comer ou beber algo significava, também, sentir prazer e se deliciar. Podia significar ainda mais. As pessoas comiam muito quando estavam ansiosas, e não comiam nada quando estavam tristes. Descontavam na comida todas as suas frustrações, como se ela fosse capaz de solucionar seus problemas. Não era. Mas amenizava um pouco os sentimentos conflitantes. As pessoas associavam sentimentos e emoções às comidas; uma despertava alegria, outra tédio, outra nojo e outra, até mesmo, paixão. E não parava por aí.   

            A comida possuía uma linguagem própria. Em algumas culturas, comer determinado alimento ou beber uma bebida específica, poderia significar mais do que simplesmente se alimentar. E a comida passou a ter um papel social: as pessoas convidavam umas às outras para comer, para que pudessem estar juntas. E, sentadas à mesa, faziam-se família, mesmo que não tivessem qualquer parentesco sanguíneo. A comida, sem dúvida, aproximava os seres humanos.

            Aquilo também se perdeu. Não comíamos mais. Não nos sentávamos em mesa para comer e beber, e compartilhar a vida. Não tínhamos desculpas para tentar conhecer melhor o próximo, nem para passarmos um tempinho juntos. E nem um refúgio, uma válvula de escape literalmente deliciosa para todos os nossos problemas. Tínhamos que resolvê-los, ao invés de encontrar distrações. E não sentíamos os gostos, não sabíamos o que harmonizava com o que e nem despertávamos e estimulávamos nossas sensações de forma tão prazerosa.

            Naquela lembrança, eu estava sozinho. Eu não compartilhava nada com ninguém. Mas uma certeza me preenchia: algum dia, em algum momento, eu teria alguém com quem dividir. E teria alguém me esperando chegar em casa.

            Eu ali, sozinho, saboreando o café quente e extremamente reconfortante. Olhando para algo que não conseguia lembrar. E bastou aquilo: um sabor, para despertar em mim uma nova Mudança. E tudo começou com um suspiro.

             Agora eu podia me lembrar de um dia sentir. Sentir o gosto das coisas e me encher de felicidade ou agonia por isso. De dividir, de compartilhar e de me aproximar de quem eu quisesse. As minhas opções eram inesgotáveis e eu nunca me cansava de uma comida, pois estava sempre comendo e bebendo coisas diferentes.

            Mas não deixava de beber um pouco de café a cada dia.    

            O café era meu sabor favorito. O sabor favorito do pianista, que tocava horas sem parar e depois aquecia suas mãos através da caneca, sentindo o líquido quente. E então bebia, saboreava, aproveitava os segundos.

            23:52

            E mesmo que eu resgatasse aquela memória, jamais poderia resgatar meus sentimentos. Senti-los de novo, idênticos àquela época. No momento, eu senti. E já foi. Agora, restavam palavras que tentavam transmitir sentimentos. Sensações vagas, restos de memória do que um dia existiu de fato. A Mudança já os havia atingido, e agora era impossível retornar. Como uma pessoa que corre, sempre olhando para frente, consciente de seu ritmo. Ela pode, sim, voltar ao ponto de partida. Mas não será mais o mesmo.


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quinta-feira, 13 de maio de 2021

Suspiro - Parte 1

 


Quando me dei conta, tentei me ferir, somente para ver se ainda sentia alguma coisa.

            Mas não.

 

            Parte 1

            No meio da escuridão da noite, um suspiro me assustou. Eu não suspirava há anos, porque não sentia a necessidade. Simples assim. O que não era necessário deixou de ser considerado há muito tempo na sociedade em que eu vivia. Mas acredito que, se bastou um suspiro para me mudar um pouquinho, bastou bem menos para mudar o mundo ao nosso redor.

            Já não fazia tanta diferença a noite ou o dia. As ruas eram tão iluminadas, que se tornavam claras como se estivessem banhadas pela luz do sol. As torres nos aproximavam do céu sem estrelas. Pelo vidro, eu via máquinas flutuando de um lado para o outro, silenciosas e brilhantes, como parecia sempre ter sido. Ao longe, construções ainda mais modernas e deslumbrantes, num mundo em tom de branco. Tudo limpo, claro e sem falhas.

            Olhei para as minhas mãos. Eram grandes e metálicas, o único tom cinzento naquela imensidão branca. Uma máquina em formato de homem. Uma consciência de humano dentro de um corpo extremamente tecnológico, que só buscava o que era necessário. E que não necessitava de muito para funcionar perfeitamente bem.

            Tínhamos memória, mas ela ficava adormecida. Desde que fomos “transferidos” para corpos mais resistentes, mais eficientes, nossas vidas mudaram por completo. Sabíamos quem éramos, mas com o tempo, a memória ia se esvaindo. Nossos corpos não eram frágeis e quebradiços. E manter a memória viva era fácil, com a tecnologia que possuíamos, mas não era necessário. Então a maioria de nós se esquecia, e as lembranças iam se apagando, como era o curso natural de funcionamento da memória: substituir as velhas pelas novas lembranças. As mais recentes. Até mesmo as que mais nos impactavam, um dia perdiam sua força. A imortalidade tem um preço. E os anos passavam, voavam, e tudo era esquecido. A única coisa que precisávamos manter era conhecimento, exercitando-o e transmitindo-o constantemente. O restante, era desnecessário.

            Eu já era velho quando tudo mudou. E nem podia contar quantos anos se passaram desde que vivi no meu “novo” corpo, que agora já era meu velho corpo, e o outro já nem mais existia. É difícil manter sentimentos por qualquer coisa, quando não se tem lembrança sobre ela. E era difícil perceber algo que dura para sempre como precioso. E, aos poucos, eu já nem sabia o que sentia mais. Se sentia.

            De repente, me dei conta do óbvio. Podíamos ter os prédios mais altos e tecnológicos. Podíamos ter todo o tipo de conhecimento na palma das mãos, podíamos ter a imortalidade como nossa aliada e podíamos nos considerar uma raça superior. Mas jamais seríamos mais poderosos que a Mudança. Ela é inevitável, e mais implacável que a própria vida, ou a própria morte. Estávamos mudando o tempo todo, mas e se quiséssemos parar em algum estágio e permanecer os mesmos? Era impossível. Porque não escolhemos quando ela irá acontecer, nem como. Ela só... Acontece.

            A Mudança, naqueles tempos, era nossa maior inimiga. Porque era a única coisa que não podíamos escolher.

            A lembrança veio a mim como um sonho. Ou talvez fosse mesmo um sonho, eu estando acordado ou não. O indiscutível era que se tratava de uma invenção da minha mente, impulsionada pela Mudança. Voltei a olhar para minhas mãos, mas agora elas tinham cor. Eram vivas e macias, e indiscutivelmente frágeis. Não eram as mãos do velho que eu um dia fui e ainda era; era as mãos de um eu jovem, que já conhecia a Mudança, mas não tinha ideia de seu peso. Mãos que ainda não tinham sido marcadas pelo tempo, pela velhice, pela dor de se conhecer certas verdades. Mãos ingênuas, mas incrivelmente talentosas.

            Minhas mãos tocavam as teclas de maneira delicada e lenta, como se eu sentisse muito mais com aquele toque. Como se pudesse compreender os sentimentos do instrumento à minha frente. E então, eu ouvia a melodia. A melodia mais doce e adorável que eu conhecia. Um dia, fui pianista. Não existem mais pianistas na minha sociedade; não há necessidade. Mas na época, eu me sentia extremamente importante e necessário. E eu tocava como se estivesse acariciando as pétalas de uma flor, com as mãos ingênuas e o toque delicado, e fechava os olhos. Com os olhos fechados, eu esquecia do mundo ao meu redor e só sentia a música e nada mais. A música me preenchia e tudo fazia sentido para mim. Nos meus momentos mais felizes, eu toquei. E nos mais tristes também. Mas não era com esses momentos que sonhava agora, mas com um dia qualquer, em que eu tocava piano lentamente, sentindo e apreciando o potencial de cada tecla, a beleza de cada som que eu produzia.

            Eu era alguém. Eu tinha nome. As pessoas me chamavam pelo nome e me associavam à figura do talentoso pianista. No presente, eu não era nada. Assim como todos lá fora, que não têm nomes e nem funções, já que tudo o que precisamos fazer é programar algumas máquinas e todo o trabalho está feito. Nós mesmos somos máquinas. E nós temos controle sobre absolutamente tudo. Sobre o trabalho, sobre os fenômenos que nos cercam, sobre nós mesmos, nossos corpos, pensamentos e eventuais emoções. Mas não temos controle sobre a força maior que nos move.

            Já não sou mais o mesmo que suspirou. Tive aquele sonho, tocando piano, e me enchi de algo que não soube explicar. Nostalgia, talvez. Porque era saudade, mas não me entristecia. Só me fazia pensar: se algum dia, talvez, eu quisesse voltar àquela época. Quisesse tocar piano novamente... Eu jamais iria conseguir. Porque as coisas mudaram, e já não sou mais o mesmo. Minhas mãos mudaram. Meu nome mudou, ou deixou de existir. E onde vivo, as pessoas não precisam de músicos.

            O sonho/lembrança me despertou para outras coisas. Reflexões que existiam dentro de mim, mas também permaneciam adormecidas. Questionamentos que eu mesmo tentei suprimir. Quando comecei a pensar aquelas coisas, senti que minha mente iria dar um nó. Olhei para o relógio:

23:51

Um minuto desde que suspirei.

Tentei me lembrar o nome da música que eu tocava, mas fazia muito, muito tempo. Não conseguia. Mas me lembrava a melodia, que tentei cantarolar. Era linda. Mas o mais lindo era o movimento dos meus dedos tocando as teclas, produzindo som. Mágico.

            Tudo o que temos feito, em todo esse tempo, como raça humana, foi tentar melhorar as coisas. Foi tentar crescer. E crescemos. Avançamos em aspectos inimagináveis. Ninguém mais nascia, mas os que já nasceram e cresceram, eram imortais. Não conhecíamos o medo da morte, da doença, da miséria e das tragédias.

            Mas não conhecíamos o verdadeiro valor do que nos cercava, já que nunca tínhamos nada a perder.

            Quando me dei conta, tentei me ferir, somente para ver se ainda sentia alguma coisa.

            Mas não.

            Eu não conseguiria ferir um corpo como aquele. E não conseguia sentir dor, nem física, nem psicológica. Foi então que me dei conta e disse, em voz alta:

            — Nós mudamos.

            E essa era a única coisa que poderia, agora, me apavorar. 


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quinta-feira, 28 de janeiro de 2021

O que resta - Parte 3

 


    Benjamin não conseguia deixar de pensar em Victoria. Como havia sido a morte da filha? Por que ela sempre tinha um sorriso no rosto, mas um olhar sombrio? Também não conseguia ignorar o fato de que Alexander nunca dizia muito ou se sentia à vontade na presença dela.

            O luto era algo muito particular. O luto o havia transformado para sempre. E o luto havia, também, transformado aquela mulher. Talvez ele só estivesse se metendo em um assunto que não era da sua conta, mas ele era curioso por natureza. Sua curiosidade, aliada à intuição, fazia com que ele descobrisse muitas coisas e solucionasse casos. E ele não sabia até que ponto aquilo era verdade, mas Victoria tinha alguma relação com o caso em questão. Não poderia perguntá-la diretamente detalhes da morte da filha, ou qual era seu envolvimento com o incêndio que tirou a vida de tantos.

            A morte de Sofia, a filha de Victoria, era coberta de incertezas. Ela tinha apenas dezesseis anos, quando foi encontrada morta. Havia sido estrangulada. Não encontraram o culpado, ou, pelo menos, não tinham pistas o suficiente para incriminar ninguém. A mãe, Victoria, pareceu desistir de encontrar justiça. Ela sabia de algo. Benjamin tinha certeza: ela sabia, mas por que fingiu não saber? Pessoas poderosas estavam envolvidas naquele crime. Caso contrário, ele não teria sido tão nebuloso.

            Sofia havia sido encontrada com uma caixinha de música na mão. Mas algo chamava ainda mais a atenção de Benjamin. Algo que contrastava com a violência do assassinato. Sofia estava deitada. E, ao seu redor, uma variedade de flores. Benjamin não sabia se ela havia mesmo morrido ali, ou se a levaram depois da morte e a deitaram numa cama de flores, num sono do qual ela nunca iria despertar. Sofia foi encontrada, morta, num jardim.

            Benjamin sentiu calafrios, imaginando a cena da adolescente morta, cercada de flores. A morte, algo tão temido, diante da beleza e delicadeza das flores. Talvez a morte não fosse exatamente feia. Talvez fosse também bela e delicada. Não a morte em si. Não o corpo sem vida. Mas o adeus. A beleza da despedida.

            Ele fechou os olhos, tentando focar naqueles pensamentos. Porque ela não estava bonita quando se foi. Nem foi belo dizer adeus à pessoa que ele mais amou em toda a vida. Ela também gostava de flores. Tinha perfume de flor. E ele se lembrava qual era o maior sonho dela:

            ­– Eu quero ver o oceano.

            Ela nunca tinha visto o mar. Benjamin vivia dizendo que a levaria em breve para um passeio na praia, mas nunca tinha tempo. Vivia muito ocupado e negligenciava seus planos. Mas ela nunca pareceu chateada de estar em segundo plano. Algo tão simples para muitos, mas que ela nunca conheceu. A beleza do oceano.

            Ele se lembrava de perguntá-la o que era tão especial assim. Não entendia o motivo de seu sonho ser tão simples. Simples como ela. Mas ela não se intimidava. Dizia que queria ouvir o som das ondas. Sentir a água gelada contra a pele. E olhar para algo que aparentemente não tinha fim.

            Ela nunca pôde ver.

            E a culpa era dele.

            A culpa era dele, por nunca ter percebido antes. Nunca ter percebido o sofrimento dela, a dor que ela carregava silenciosamente. Era tão pesada que ela não pôde suportar mais. Naquela tarde, ele chegou em casa e encontrou um bilhete.

            Me desculpe por não suportar mais. Estou indo para o lugar em que nos conhecemos, mas já não posso sentir mais nada.

            Ainda assim, eu amo você.

            Adeus.

            Íris.

            Ele seguiu as pistas, como um investigador. Já era noite. Correu o máximo que pôde e chegou ao rio em que os dois se viram pela primeira vez. Eles se encontraram na ponte, na mesma em que ela estava naquela noite, parada como uma estátua. Suas últimas palavras foram:

            – Isso não é o oceano.

            E então pulou. Ela não sabia nadar. Benjamin poderia pular atrás dela e salvá-la, mas hesitou. Foi o seu maior erro. Ele poderia ter salvado sua esposa se tivesse sido mais rápido. Mas não foi. E sabia que era culpado porque, no fundo, sabia que sua hesitação não foi simplesmente um choque. Foi consciente. Ela queria aquilo. Ele não podia tirar dela seu último desejo.  

            Ela queria morrer. E ele a deixou.

            A culpa o perseguia. Se, pelo menos, tivesse pensado diferente. Se tivesse sido egoísta, ela estaria com ele agora. Talvez, estivessem felizes. Ele se lembrava da sensação da água entrando pelos seus sapatos. De tirá-la do rio, já sem vida, e de ver a expressão no rosto dela ao morrer. E de suas últimas palavras, o sonho nunca realizado.

            Naquela noite, Benjamin chorou. Depois de muito tempo, ele se permitiu libertar as emoções que sentia. Na manhã seguinte, já recuperado, pelo menos visualmente, foi de encontro a Alexander.

            – Por que você a matou? – foi sua primeira pergunta. Não precisou contextualizar nada. Alexander sabia do que ele estava falando.

            – Eu a amava. Mas ela nunca me amou. Ela ganhou aquela caixinha de música idiota do rapaz que gostava. E ela colocou a música para tocar. Eu fui invadido por uma sensação que tenho medo de pensar... Não consigo colocar em palavras, mas seria algo parecido com ódio. Ira. Então eu senti minhas mãos ao redor do pescoço dela. Ela era pequena e delicada. Eu senti... A vida dela indo embora aos poucos. Eu não vi nada acontecer. Eu só... Ouvi aquela caixinha de música tocando ao fundo. Uma música tão bonita, para uma cena tão horrenda. Eu nunca, por um segundo sequer, esqueci a canção. Mas me esqueci do rosto dela...

            – Ela tem um nome. Sofia.

            Ela tem um nome. Íris.  

            Benjamin agora entendia qual a relação de Alexander e Victoria. Ele havia assassinado a sua preciosa filha. Ela tinha motivos de sobra para querer se vingar dele. Mas ainda assim, ele estava surpreso. Por que ela tinha, então, feito o que fez? E por que Alexander permanecia vivo, enquanto seus colegas haviam morrido de forma tão trágica?

            Alexander acabou confirmando que Victoria era quem ia ao colégio às vezes, e ficava o observando pela janela. Também confirmou que ela estava na cena do crime, trancou as portas e colocou a caixinha de música para tocar. Era óbvio que ele ficaria paralisado, já que era a música que despertava o seu trauma de ter matado, com as próprias mãos, uma jovem, em um momento de surto. Alexander sempre foi um rapaz tranquilo, mas isso não o impediu de ter matado alguém. Os pais, muito ricos, ajudaram a encobertar o crime. E Victoria, provavelmente já arquitetando seu plano de vingança, decidiu não pressionar mais o assunto. Ela faria a justiça com as próprias mãos.

            Tudo fazia sentido e se encaixava perfeitamente. No entanto, Benjamin ainda tinha muitas dúvidas em relação ao comportamento dela. Não sabia por que, mas queria entendê-la.

            – Por que a surpresa? – ela disse com frieza quando foi interrogada por ele. – É por que eu não parecia ser capaz de tal crime? Porque eu sei sorrir, manter uma conversa e me comportar em sociedade? Aquele menino também fazia tudo isso. Vivia, aos olhos dos outros, como se nada tivesse acontecido. Mas a gente nunca sabe o que está por dentro, escondido. Nem mesmo um investigador esperto como o senhor é capaz de entrar na cabeça das pessoas. O senhor nunca vai entender como me sinto. Como me senti quando encontrei minha filha morta, com a caixinha de música nas mãos. Eu ouvi aquela música todos os dias e todas as noites, enquanto buscava uma maneira de aliviar minha dor. E a conclusão a que cheguei foi que a morte seria pouco para ele. Ele precisava entender o que era perder alguém. Mas muito mais do que isso... Ele precisava entender o que é carregar o peso de se estar vivo. De ser o que resta.

            Benjamin conhecia bem aquele peso. Agora, Alexander também. Victoria, igualmente. Todos eles tinham algo em comum: a culpa. E os três estavam longe de conseguirem se libertar. Victoria e Alexander iriam pagar pelos seus crimes. Mas não havia punição mais severa do que se arrepender de estar vivo.

            Benjamin concluiu mais um caso, aliviado. Aquele caso o fez pensar e desenterrar a própria dor. Mas logo em seguida, outro caso surgiria e ele ocuparia a mente com a dor dos outros, com a morte alheia, e seguiria em frente. Porque sua vida se resumia em encontrar distrações e fugas.

            Ser o que resta estava longe de ser algo a se comemorar. Aquilo podia ser chamado de vida?

            Não era o oceano.

            Era só um rio qualquer.

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quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

O que resta - Parte 2

 


               – Quem estava com você na escola?

            Benjamin estava com Alexander novamente. No último encontro com o rapaz, ele continuou dando respostas confusas e se esquivando. Por algum motivo, ele parecia profundamente amedrontado e, quando questionado sobre a pessoa que o acompanhava, ele entrava em um estado de pânico, chorando, gritando e até mesmo se tornando agressivo. Benjamin notou a maneira com que ele nunca olhava na direção de Victoria, como se não confiasse nela, mas apenas em Benjamin. Então decidiu encontrar-se com ele sozinho, na esperança de poder ouvi-lo falar mais livremente, sem constrangimentos.

            – Eu não sei.

            Benjamin refez a pergunta com um tom mais sério. Estava disposto a perguntar pela última vez, pois já havia visto que perguntar aquilo não era eficiente. Ele não iria responder tão facilmente. Dada a maneira assustada com que ele agia, ele podia estar sendo ameaçado. Estava com medo. Benjamin continuou tentando convencê-lo.

            – Eu sei que sua vida pode estar em risco. Mas você pode ser acusado de um crime que não cometeu. Não preciso de um nome agora. Você pode me dizer se era alguém que você conhecia?

            – Eu não conheço ela. Não sei quem é.

            Ela. Então, era uma pessoa do sexo feminino. Benjamin não deu sinais de ter percebido, e continuou sua abordagem:

            – Por que ela... Essa pessoa ligou a música?

            – Para me fazer sofrer. Para me fazer ouvir os gritos. Para que eu não fugisse.

            – E por que uma caixinha de música trouxe a você tanto sofrimento?

            – Porque eu odeio aquela música. Ela me persegue... E eu odeio aquela música.

            Benjamin, um tempo depois, reuniu-se com Victoria para que pudessem discutir o que tinham descoberto. Victoria conversou com as famílias das vítimas, mas nada parecia incomum. Eles não tinham inimigos ou pessoas que pudessem atacá-los com uma motivação clara. Mas o que mais incomodava Victoria era a pressão que faziam para que descobrissem o que realmente havia acontecido. Eles estavam prosseguindo rapidamente com as investigações e não podiam tomar decisões precipitadas, mas as famílias eram ricas e de prestígio, por isso, eles estavam sendo pressionados de todos os lados. Tinham que descobrir logo a verdade, nem que precisassem arrancá-la de Alexander.

            Mas não era daquele jeito que Benjamin agia. Ele era calmo e paciente, gostava de fazer tudo no próprio ritmo e não deixar aberturas para erros, confusões ou ações impulsivas.

            – Alguém estava lá com Alexander. Os dois estavam do lado de fora do salão, e a pessoa que acompanhava provavelmente foi quem trancou as portas. E essa pessoa colocou uma caixinha de música para tocar, na intenção de paralisar e amedrontar Alexander, para que ele se tornasse incapaz de qualquer coisa. Ele já conhecia a música anteriormente, pois disse que a odiava e que ela o perseguia, por algum motivo. Então é provável que essa música se relacione com algum trauma que Alexander tinha, e que essa pessoa conhecia também. Não foi algo aleatório. E Alexander afirmou não conhecê-la, se referindo a esse alguém como “ela”, então podemos deduzir que se trata de uma mulher. Isso é tudo que temos até o momento. – Benjamin resumiu.

            – Existem muitas pontas soltas nessa história. Acho que ainda não conseguiremos chegar a nenhuma conclusão. – Victoria comentou.

            Os dois concordaram. Victoria se despediu dele, explicando que tinha compromissos importantes. Benjamin não se interessava nem um pouco pela vida pessoal dela, mas acabou perguntando, mais por educação:

            – Vai encontrar sua filha?

            A expressão de Victoria mudou completamente. Por um segundo, ele viu no rosto dela algo indecifrável, um brilho no olhar que parecia mágoa. Mas logo depois essa expressão desapareceu, dando lugar à mesma de sempre.

            – Não. Não creio que isso seja possível. – ela sorriu, mas parecia muito triste. – Minha filha não está mais entre nós.

            – Ah! – Benjamin exclamou, completamente sem jeito.

            Antes que ele pudesse expressar compaixão ou dizer “sinto muito”, ela foi embora. Ele não se importou, já que era por pura educação. Benjamin continuou revisando as informações que tinha, coçando a cabeça, tentando tirar dela alguma nova informação ou qualquer conclusão. Nada parecia se conectar.

            Ele andou pelas ruas, pensativo, analisando as expressões das pessoas que passavam por ele. Às vezes, recebia alguns olhares de volta. Mas na maior parte do tempo, as pessoas estavam preocupadas demais com suas próprias vidas e questões, que nem se davam conta de estarem sendo observadas. Benjamin caminhou por horas e viu cada vez menos pessoas. As ruas desapareceram e ele se viu cercado de árvores. Começava a anoitecer, mas ele não tinha medo algum. Não havia nada que temia. Não mais.

            Parou, por fim, em frente a um rio. Não se aproximou muito. O olhou como se estivesse vendo um fantasma. As sensações voltaram. O frio que invadia cada parte do seu corpo e que o fazia sentir arrepios intermináveis. A água gelada entrando no seu sapato. O som dos grilos ao longe, o gosto amargo na boca.

            E os olhos dela. A boca dela. A expressão em seu rosto ao morrer.

            Benjamin recobrou os sentidos. Quando percebeu, estava caminhando em direção ao rio. Ele não precisava ter o mesmo destino dela. Estava sendo irracional e, percebendo isso, afastou-se do rio e daquela força que o chamava. E naquela noite, novamente, ele não pôde dormir.

            – De onde você a conhece? – Benjamin perguntou.

            – De muitos lugares. Ela costumava nos visitar na escola algumas noites. Os rapazes ficavam assustados e ao mesmo tempo animados, todos grudados na janela. Ela só ficava lá embaixo, no jardim, olhando para cima. Parecia um fantasma. Mas, ao mesmo tempo, uma criatura divina.

            – Então ela conhecia bem a sua escola.

            – Ela conhece muitas coisas. Ela planejou isso por muito tempo.

            – E por que ela fez isso?

            E então Alexander chorava mais uma vez. Suas lágrimas não pareciam secar. Ele voltava a falar sobre a música, a melodia que o assombrava sempre que fechava os olhos.

            – Pode me dizer como era essa caixinha de música? – perguntou Benjamin, insistindo um pouco mais do que o normal.

            – Era uma caixinha comum, de madeira. Tinha uns desenhos... Uma flor. Eu sei qual era, porque estudamos isso numa aula sobre plantas e flores. Gérbera. Era uma gérbera.

            Benjamin foi de encontro a Victoria, pensativo. Não conseguia parar de pensar na última parte da conversa com Alexander. Antes de Benjamin ir embora, Alexander o chamou.

            – Eu não ligo se for declarado culpado. Eu sou culpado, mas de outro crime. Eu... Eu matei alguém.

            E então se recusou a falar mais. Benjamin insistiria no assunto e descobriria mais depois, mas aquilo era a informação de maior importância que ele conseguira até então. Victoria o esperava sentada num banco, usando um vestido escuro. Ela parecia muito misteriosa. Ele se sentou ao lado dela e os dois conversaram sobre as novas descobertas. Ela nunca compartilhava muita coisa com ele, mas era uma excelente ouvinte. Parecia inteligente, mas não gostava de demonstrar.

            Ao se despedir, Benjamin se lembrou de algo que queria dizer e se virou bruscamente, trombando em Victoria, que estava bem atrás dele.

            – Me perdoe. – ele disse, mas ela apenas perdeu um pouco o equilíbrio e derrubou a bolsa grande.

            De dentro da bolsa, um pequeno buquê caiu. As flores lembravam girassóis e logo Benjamin percebeu.

            – Vai a um encontro? – ele perguntou em tom descontraído, controlando as próprias emoções.

            – Não. São para minha filha. Irei visitá-la hoje.

            Benjamin assentiu e se despediu rapidamente. No caminho para casa, não podia parar de pensar nas várias teorias que surgiam em sua mente. Ele acreditava que coincidências não existiam. Passou a noite em claro revisando as informações. E então se lembrou dela, chegando em casa com um buquê de flores, falando que havia presenteado a si mesma. “Você é muito frio para dar flores”, ela dizia. E então explicou a ele como era o nome daquela flor e se empolgou, começando a explicar as características de várias flores diferentes. Ele ouviu aquele nome antes e suas características, mas, para ter certeza, pesquisou num livro se era realmente o que imaginava. Viu a imagem.

            As flores que Victoria estava levando para a visita à filha morta eram indiscutivelmente aquelas. Gérberas.

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quinta-feira, 14 de janeiro de 2021

O que resta - Parte 1

    Quando alguém se depara com a morte, várias podem ser as reações e também as impressões deixadas. Para ele, era uma coisa normal e rotineira. Deixou de ser especial há muito tempo. Não havia choro que o tocasse. Nem imagem que o fizesse desejar não poder enxergar mais. Não havia som que o perturbasse e tirasse sua concentração. Mas havia algo com o qual ele nunca se acostumou. Os cheiros.

            A morte não cheira bem. Naquele momento, principalmente, ele tinha a certeza disso. O cheiro de corpos queimados era algo que ele não poderia esquecer facilmente. Mesmo depois que chegasse em casa, provavelmente ficaria esfregando o nariz, esperando que algum outro cheiro pudesse substituí-lo. Aquilo o incomodava muito, mas ele não deixava que ficasse em seu caminho. Afinal de contas, aquele era o trabalho dele.

            ­­– Benjamin. – uma voz feminina o chamou. – Eu estarei encarregada, junto ao senhor, da investigação. Ouvi dizer que o senhor não gosta de ajudantes. Mas eu realmente estou muito, muito curiosa.

            Ela o encarava com um sorriso no rosto. Provavelmente não havia ouvido falar sobre o quão sistemático ele era. Não gostava que se referissem a ele de forma tão amigável e despreocupada. Ele era jovem e, por isso, subestimado em seu trabalho. Tinha que passar por provas o tempo inteiro e mostrar que era capaz, independente de sua idade. Sua insegurança em relação a isso se escondia por detrás de uma arrogância que fazia com que as pessoas o evitassem, especialmente depois de conhecê-lo um pouco mais.

            ­– Não é necessário me chamar de senhor. – ele deu um sorriso seco. – Afinal de contas, a senhora é provavelmente muito mais... Experiente do que eu.

            Ela abriu um sorriso largo. Era inteligente; sabia que ele havia acabado de chamá-la de velha. Não era mentira. Ela não era mais uma menina, mas uma mulher madura e experiente, embora a aparência às vezes a fizesse parecer mais jovem do que era.

            – Vamos nos dar bem, certamente. É praticamente impossível me tirar do sério, sabe. Meu nome é Victoria. É um grande prazer.

            Benjamin e Victoria andaram pela cena do crime, observando atentamente todos os detalhes que poderiam captar no momento. Tratava-se, claramente, de um incêndio. Mas não era um incêndio comum. Ali, naquele antigo salão de festas, mais de cem rapazes acabaram morrendo, de forma trágica e cruel. De imediato, a polícia soube que não se tratava de mais um caso de acidente a se tratar. A primeira coisa que Benjamin notou foi a porta. Muitos corpos estavam abandonados bem em frente a ela, como se buscassem freneticamente sair. Era meio óbvio: ninguém quer ser queimado vivo. Mas o que os impediu de simplesmente saírem correndo?         

            Era claro: a porta havia sido trancada. O local também não era aleatório: o salão de festas era o cômodo mais isolado do prédio. Não tinha janelas, apenas duas grandes portas, ambas trancadas.

            A escola para rapazes ficava também consideravelmente distante da área mais povoada da cidade. Perto, existiam apenas casarões e mansões pertencentes a pessoas ricas e poderosas, que buscavam um pouco de privacidade e preferiam viver afastados da correria e barulheira da cidade. Ao redor, muita natureza. Os rapazes ali aprendiam de tudo, além das áreas de conhecimento mais clássicas. Era a escola mais renomada da região, onde apenas garotos ricos podiam estudar. As turmas englobavam várias idades diferentes, mas os infelizes que acabaram se envolvendo na tragédia eram rapazes de 17 a 20 anos.

            Essas eram as informações iniciais, as quais toda a equipe tinha acesso. Benjamin voltou a olhar para os corpos jogados em frente à porta e os imaginou tentando escapar. Não havia sido um acidente qualquer. Alguém havia trancado a porta.

            – Você não acha que foi um acidente. – Victoria concluiu, ao olhar a expressão no rosto de Benjamin.

            – Não posso achar nada. Preciso de certezas. E um fato é que cem homens não morrem queimados sem ninguém reagir.

            Victoria deu um sorriso, como se estivesse se lembrando de algo nostálgico.

            ­– Eu só me lembrei de algo. – ela disse, ao receber o olhar questionador dele. – Minha filha adorava fazer questionamentos que deixariam as pessoas encurraladas. Uma vez a peguei perguntando a um familiar: “você preferiria morrer queimado ou afogado?”. Ela às vezes respondia as próprias perguntas. Sabe qual foi a resposta dela para essa? “Eu preferiria morrer queimada”. Se morresse queimada, seu corpo se tornaria irreconhecível. Assim, ninguém teria que ver sua expressão ao morrer.

            – Você fala um pouquinho demais. – Benjamin concluiu.

            Benjamin e Victoria trabalharam juntos, seguindo as pistas deixadas. Depois de um longo dia de trabalho, Benjamin retornou para casa, sozinho. Vivia numa casa extremamente fria e vazia, sem decorações ou cores vivas, toda em tons de cinza e branco. Cinza era sua cor preferida. Mas nem sempre foi assim.

            Houve um tempo em que Benjamin era uma pessoa completamente diferente, e conseguia sorrir sem sarcasmo. Houve um tempo em que ele vivia numa casa colorida, cheia de enfeites, e preenchida por risadas. Era quente. E ele se lembrava do cheiro de flores, tão agradável e doce, que ele sentia sempre que ela passava. Ela deixava um rastro de perfume. Agora, ele nem podia mais se lembrar do cheiro bom. Agora, todo o cheiro que restava era cheiro de morte, e cheiro de corpos queimados. Fedia.

            Ele não conseguia parar de pensar no incêndio que levou a vida de tantos jovens. Quando investigava um caso, se envolvia profundamente. E ele costumava pensar melhor durante a noite. Por isso, naquela noite, ele analisou as informações que eles tinham. A mais importante delas era a única testemunha, e agora também o principal suspeito. Alexander estudava na mesma escola, e estava presente no momento da tragédia. Foi ele quem chamou as autoridades. Em choque, o rapaz não conseguiu dizer muita coisa. Benjamin planejava conversar com ele em breve. Mas revendo seu primeiro depoimento, Benjamin esperava descobrir algumas coisas. As falas do rapaz eram confusas e aparentemente sem sentido. Mas ele estava longe de ser considerado um lunático.

            “Eu sabia que iria acontecer. Eu estava lá. E então eu ouvi aquela música. Aquela maldita caixinha de música tocando. E então gritos”.

            Benjamin notou que estava disperso. Mesmo relendo as palavras de Alexander, ele não conseguia pensar em nada. Nunca se tocou com nenhum caso que já havia investigado, por que agora era diferente? Não era tanto o caso em si que o incomodava. Era o fogo. E o cheiro.

            Ele se lembrou das palavras de Victoria:

            “Você preferiria morrer queimado ou afogado?”

            Calafrios percorriam seu corpo. Bem, ele preferiria não morrer. Se tivesse opção, não morreria de jeito nenhum. Mas a filha de Victoria afirmava que era melhor morrer queimado, como aqueles rapazes na escola. Porque seus corpos estavam irreconhecíveis e ninguém podia ver suas expressões ao morrerem.

            Mas com ela foi diferente. De certa forma, estava irreconhecível. Mas ainda era ela, e ele viu sua expressão, sua boca, seus olhos... E ele não conseguia mais esquecer.

            Benjamin passou a mão pelos cabelos, suspirando. Havia perdido a cabeça? Por que pensar naquelas coisas agora? Tinha que focar em seu trabalho, como sempre fez, na tentativa de esquecer aquelas coisas. De se ocupar com a morte dos outros, porque eles não tinham relação nenhuma com ele. A morte do outro trazia um alívio constrangedor. Um lembrete de que ele estava vivo.

            Enquanto relia as palavras de Alexander, fragmentos de memória invadiam sua mente. O frio congelante, a água entrando por seus sapatos, um som agudo no ouvido. E então se lembrou de olhar para sua mão ensanguentada, o sangue vermelho e vivo pingando, transformando o quarto todo em vermelhidão. O som se tornava mais alto. Naquela noite, ele deu um soco no espelho e o partiu em pedaços. Ver o sangue em sua mão o fazia lembrar que ela não sangrou. Ela simplesmente... Parou de respirar.

            Benjamin mal dormiu aquela noite. As pessoas costumavam elogiá-lo pela beleza, por isso ele sempre fez questão de manter alguns hábitos saudáveis, como a rotina de sono. Ultimamente, aquela não era mais uma realidade.

            Encontrou-se, no dia seguinte, com Victoria. Os dois comeram juntos, enquanto revisavam alguns detalhes. Comentaram sobre o depoimento de Alexander. Logo depois, encontraram o suspeito, que parecia um rapaz normal. Não era como se todo assassino carregasse uma placa no pescoço escrito “perigo”. Mas ele simplesmente parecia mais uma criança assustada do que qualquer outra coisa. Victoria observava atentamente enquanto Benjamin fazia perguntas ao rapaz. Ele respondia tudo de maneira vaga, olhando para frente, como se não visse os dois.

            ­– Você estava lá naquele dia. – Benjamin afirmou e Alexander assentiu. – Foi você quem trancou as portas?

            – Não. Eu não poderia... Fazer algo assim.

            – Você estava do lado de fora. Você ouviu os gritos. Você tentou destrancar as portas?

            – Não. Eu não conseguiria.

            – Pode nos contar o motivo?

            – Por causa da canção.

            – A canção da caixinha de música.

            Alexander pareceu muito surpreso. Assustado. Benjamin só estava afirmando o que ele próprio havia dito anteriormente.

            – Por que a surpresa? – ele perguntou ao rapaz.

            – Você é a primeira pessoa que não me olha como lunático.

            É claro que não olharia. Aquele rapaz parecia completamente consciente de tudo o que estava acontecendo, mesmo com o medo visível em seus olhos. Ele continuou respondendo a todas as perguntas de maneira confusa e aquilo parecia não levar a nada. Muitas coisas o apontavam como principal suspeito. Mas Benjamin sabia que o simples nem sempre é realmente simples.

            – Qual era música que tocava? Na caixinha de música?

            – Uma música de inverno. Eu ouvi os gritos. Mas a música me paralisou. Eu não poderia fazer nada. Não com aquela música.

            – De quem era a caixinha de música? Sua?

            – Não.

            – Foi você quem a colocou para tocar?

            – Não.

            – Quem foi?

            O rapaz começou a chorar. Seu choro não parecia nem perto de chegar ao fim, por isso Benjamin e Victoria esperaram pacientemente, mas Benjamin decidiu se levantar.

            – Aonde o senhor vai? Ainda temos muitas perguntas a fazer. – Victoria questionou.

            – É melhor darmos um tempo a ele. Voltamos depois.

            – Ele é quem estamos procurando, não é?

            – Eu não acho. Se o que ele diz é verdade, mais alguém estava com ele no mesmo lugar, no mesmo momento. Alguém colocou a caixinha de música para tocar, que o paralisou e impediu de salvar os colegas. Ele foi o único daquela classe a sobreviver. Isso não o torna automaticamente o culpado. Mas me faz pensar...

            – O quê?

            – Ele não parecia ter feito algo. Mas parecia saber quem fez.

            Os dois discutiram um pouco mais, mas não chegaram a nenhuma conclusão clara no momento. Mas Benjamin não podia esquecer o olhar no rosto do rapaz. O olhar de quem se culpa por simplesmente estar vivo. Ele já havia visto aquele olhar antes. O olhar de quem restou. 

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