Parte
3
Depois que bebi o café, outra
sensação me invadiu. Algo felpudo e quentinho passava por minha perna, fazendo
cócegas. A visão a qual eu nunca tive acesso, que eu tinha através da janela,
já não era mais meu foco. Olhei para o chão. E tive certeza: esse era o sonho
mais agradável de todos.
Uma criatura pequenina me encarava
de volta, com seus olhos imensos e azuis. Nem mesmo o oceano, ou o céu,
poderiam ser tão belos quanto aqueles olhos. Não poderiam sequer se comparar. O
azul mais puro, mais brilhante e mais envolvente, que amolecia meu coração
instantaneamente. Observei o seu rostinho com afeição. O narizinho rosado, os
bigodes compridos, a boca já se abrindo para emitir um miado.
— Gatinha! – exclamei no sonho, e
foi a primeira vez que ouvi a minha própria voz.
Parecia distante, baixa, ecoando...
Eu não a reconhecia. E então a criaturinha, cujo nome era Gatinha, se enrolou
mais uma vez na minha perna, miando mais alto. Ela era branca e peluda, com as
patinhas cor-de-rosa e os olhos azuis. Suas cores me invadiam, assim como a
sensação de seu pelo contra a minha pele. Me abaixei, até ficar da sua altura,
e ela logo pulou no meu colo, ronronando.
Seu nome não era dos mais criativos.
Não conseguia me lembrar por que um dia pensei que seria genial nomear uma gata
pequena como Gatinha. Ela merecia um nome melhor; mas pelo menos tinha um nome.
Eu tinha um também, nessa época. Hugo. Agora ninguém me chamava pelo nome.
Porque ninguém precisava de nomes.
Eu era alguém. Um dia fui alguém.
Mas eu mudei.
Gatinha era minha companheira. Mas
não víamos mais animais ao nosso redor. Nosso mundo era completamente hostil a
animais, selvagens ou domesticados. Víamos fotos, vídeos, chegávamos a
interagir com animais-máquinas, mas nenhum deles se parecia com Gatinha. Eles
eram programados para agir como animais, mas não eram animais. Eram, portanto,
uma ilusão.
Talvez nós, homens, fossemos também
assim. Cópias de seres humanos. Consciências humanas aprisionadas em corpos
falsos. Mas nada havia a ser feito. O ponto de partida já não era mais o mesmo.
Se voltássemos ao que um dia fomos, não seríamos mais seres humanos. Acho que
já não éramos mais, mesmo agora.
Podemos chamar as coisas como
quisermos. Mas quando elas mudam, já não são mais as mesmas. E Gatinha, que
poderia se chamar qualquer outro nome, era única no mundo. Eu sabia que, se
colocassem um gato com mesma aparência na minha frente, eu não seria capaz de
confundir. Porque cada criatura em nosso universo é única. E reconhecê-la era
fácil: o que fazia Gatinha ser diferente de qualquer gato de rua, era o que eu
sentia por ela, e ela por mim. Nossa relação nos construía.
Eu sentia falta dos animais. Da
família de uma espécie diferente. E sentia falta, principalmente, de ser o lar
de alguém. Coisas que nunca foram, nem nunca seriam necessárias. Mas que eram
diferenciais.
Olhei pelo vidro e a noite parecia a
mesma. O silêncio, que sempre foi meu companheiro, agora era excruciante. Não
havia nenhum tipo de som. As máquinas eram silenciosas e nós, homens, mais
ainda. Nem mesmo a natureza ousava ser barulhenta: não havia som de vento ou
qualquer outra manifestação de que as coisas estavam vivas. Estavam mudando. Em
constante transformação, o mundo girava. Mas a Mudança era silenciosa e
implacável. Impiedosa. Sua maior crueldade era agir em silêncio, sem fazer
alarde, até que nos acostumávamos com ela. Não notávamos sua presença ou sua
ação. E um dia, soltávamos um suspiro. E então a força gravitacional do mundo
parava de funcionar. E ele desabava, de uma só vez, em nossas cabeças.
23:53
Não adiantava o quanto eu olhasse
para fora, não iria amanhecer. A noite estava longe de acabar. Parecia ter se
passado, pelo menos, algumas horas desde meu primeiro sonho acordado. Talvez
alguns dias, ou mesmo uma semana? Foram tantos sentimentos, tantas reflexões,
tantas sensações e tantas, mas tantas dúvidas. Mas não. Só se passaram três
minutos.
O tempo se arrasta quando se tem a
eternidade. O tempo vira algo abstrato, confuso e, quem sabe, desnecessário?
Perdido nas minhas lembranças, eu já
não sabia o que havia acontecido primeiro: o café, a Gatinha, o piano? Ou o
contrário? Ou quem sabe uma ordem completamente diferente? Eu não poderia
saber, ao certo, quando tudo aconteceu. Ou se aconteceu mesmo assim. As
lembranças não são lineares, mas idas e vindas constantes. E não são separadas,
divididas, mas se misturam, se confundem e se tornam uma coisa só.
Sonhei ou me lembrei? Inventei ou
retornei ao passado?
Aquilo nunca havia me acontecido. Eu
nunca questionei nada, nunca me perguntei como seria retornar ao que um dia já
tivemos. Porque a nossa ideia era de que a caminhada deveria ser sempre à
frente. Quem foi que disse que não podemos, de vez em quando, andar para trás?
E quem disse que o futuro seria mais brilhante, mais promissor e mais feliz, quando
algumas das respostas estão no passado?
Eu queria voltar?
Não. Porque já mudei. E se voltasse,
já não seria mais o mesmo. E mudaria de novo. Eu não era diferente, não era
especial. Eu mudava, porque o que fazia com que eu fosse quem realmente era, era
isso: a minha capacidade de mudar. Eu me transformava a cada situação, a cada
momento, a cada segundo! E eu não tinha escolha.
Nenhum de nós tem.
No dia seguinte, voltaria a viver
normalmente. Não deixaria de me movimentar. Mas ia sentir saudades.
Sei que, um dia, bastou bem pouco
para que o mundo girasse mais rápido. Foi uma fala, uma ação, uma escolha. Um
sopro de vento. Lá fora, as luzes brilhavam com mais força, num silêncio
absoluto. Era tudo o que eu conhecia. A eternidade, que se tingia de branco.
23:54
Os sonhos acabaram. Meu momento
também já passou. Talvez nunca volte. Não estou com medo do que o futuro nos
reserva. Nem medo de me esquecer de tudo, de quem sou ou até mesmo do nome que
um dia tive. Não estou com medo de fazer escolhas, de optar pelo que acho
melhor para mim, ou mesmo para a humanidade.
Talvez, não sejamos nós os culpados
por caminhar sempre para frente, sem olhar para trás. Talvez, aquele seja o
único caminho possível. Avançar, avançar, avançar.
Um último suspiro nunca viria. Mas
um pouco da vida em mim escapava a cada lembrança, ou sonho. Viver para sempre
era também morrer eternamente.
E assim, tudo mudou.
Bastou um suspiro.





