quinta-feira, 13 de maio de 2021

Suspiro - Parte 1

 


Quando me dei conta, tentei me ferir, somente para ver se ainda sentia alguma coisa.

            Mas não.

 

            Parte 1

            No meio da escuridão da noite, um suspiro me assustou. Eu não suspirava há anos, porque não sentia a necessidade. Simples assim. O que não era necessário deixou de ser considerado há muito tempo na sociedade em que eu vivia. Mas acredito que, se bastou um suspiro para me mudar um pouquinho, bastou bem menos para mudar o mundo ao nosso redor.

            Já não fazia tanta diferença a noite ou o dia. As ruas eram tão iluminadas, que se tornavam claras como se estivessem banhadas pela luz do sol. As torres nos aproximavam do céu sem estrelas. Pelo vidro, eu via máquinas flutuando de um lado para o outro, silenciosas e brilhantes, como parecia sempre ter sido. Ao longe, construções ainda mais modernas e deslumbrantes, num mundo em tom de branco. Tudo limpo, claro e sem falhas.

            Olhei para as minhas mãos. Eram grandes e metálicas, o único tom cinzento naquela imensidão branca. Uma máquina em formato de homem. Uma consciência de humano dentro de um corpo extremamente tecnológico, que só buscava o que era necessário. E que não necessitava de muito para funcionar perfeitamente bem.

            Tínhamos memória, mas ela ficava adormecida. Desde que fomos “transferidos” para corpos mais resistentes, mais eficientes, nossas vidas mudaram por completo. Sabíamos quem éramos, mas com o tempo, a memória ia se esvaindo. Nossos corpos não eram frágeis e quebradiços. E manter a memória viva era fácil, com a tecnologia que possuíamos, mas não era necessário. Então a maioria de nós se esquecia, e as lembranças iam se apagando, como era o curso natural de funcionamento da memória: substituir as velhas pelas novas lembranças. As mais recentes. Até mesmo as que mais nos impactavam, um dia perdiam sua força. A imortalidade tem um preço. E os anos passavam, voavam, e tudo era esquecido. A única coisa que precisávamos manter era conhecimento, exercitando-o e transmitindo-o constantemente. O restante, era desnecessário.

            Eu já era velho quando tudo mudou. E nem podia contar quantos anos se passaram desde que vivi no meu “novo” corpo, que agora já era meu velho corpo, e o outro já nem mais existia. É difícil manter sentimentos por qualquer coisa, quando não se tem lembrança sobre ela. E era difícil perceber algo que dura para sempre como precioso. E, aos poucos, eu já nem sabia o que sentia mais. Se sentia.

            De repente, me dei conta do óbvio. Podíamos ter os prédios mais altos e tecnológicos. Podíamos ter todo o tipo de conhecimento na palma das mãos, podíamos ter a imortalidade como nossa aliada e podíamos nos considerar uma raça superior. Mas jamais seríamos mais poderosos que a Mudança. Ela é inevitável, e mais implacável que a própria vida, ou a própria morte. Estávamos mudando o tempo todo, mas e se quiséssemos parar em algum estágio e permanecer os mesmos? Era impossível. Porque não escolhemos quando ela irá acontecer, nem como. Ela só... Acontece.

            A Mudança, naqueles tempos, era nossa maior inimiga. Porque era a única coisa que não podíamos escolher.

            A lembrança veio a mim como um sonho. Ou talvez fosse mesmo um sonho, eu estando acordado ou não. O indiscutível era que se tratava de uma invenção da minha mente, impulsionada pela Mudança. Voltei a olhar para minhas mãos, mas agora elas tinham cor. Eram vivas e macias, e indiscutivelmente frágeis. Não eram as mãos do velho que eu um dia fui e ainda era; era as mãos de um eu jovem, que já conhecia a Mudança, mas não tinha ideia de seu peso. Mãos que ainda não tinham sido marcadas pelo tempo, pela velhice, pela dor de se conhecer certas verdades. Mãos ingênuas, mas incrivelmente talentosas.

            Minhas mãos tocavam as teclas de maneira delicada e lenta, como se eu sentisse muito mais com aquele toque. Como se pudesse compreender os sentimentos do instrumento à minha frente. E então, eu ouvia a melodia. A melodia mais doce e adorável que eu conhecia. Um dia, fui pianista. Não existem mais pianistas na minha sociedade; não há necessidade. Mas na época, eu me sentia extremamente importante e necessário. E eu tocava como se estivesse acariciando as pétalas de uma flor, com as mãos ingênuas e o toque delicado, e fechava os olhos. Com os olhos fechados, eu esquecia do mundo ao meu redor e só sentia a música e nada mais. A música me preenchia e tudo fazia sentido para mim. Nos meus momentos mais felizes, eu toquei. E nos mais tristes também. Mas não era com esses momentos que sonhava agora, mas com um dia qualquer, em que eu tocava piano lentamente, sentindo e apreciando o potencial de cada tecla, a beleza de cada som que eu produzia.

            Eu era alguém. Eu tinha nome. As pessoas me chamavam pelo nome e me associavam à figura do talentoso pianista. No presente, eu não era nada. Assim como todos lá fora, que não têm nomes e nem funções, já que tudo o que precisamos fazer é programar algumas máquinas e todo o trabalho está feito. Nós mesmos somos máquinas. E nós temos controle sobre absolutamente tudo. Sobre o trabalho, sobre os fenômenos que nos cercam, sobre nós mesmos, nossos corpos, pensamentos e eventuais emoções. Mas não temos controle sobre a força maior que nos move.

            Já não sou mais o mesmo que suspirou. Tive aquele sonho, tocando piano, e me enchi de algo que não soube explicar. Nostalgia, talvez. Porque era saudade, mas não me entristecia. Só me fazia pensar: se algum dia, talvez, eu quisesse voltar àquela época. Quisesse tocar piano novamente... Eu jamais iria conseguir. Porque as coisas mudaram, e já não sou mais o mesmo. Minhas mãos mudaram. Meu nome mudou, ou deixou de existir. E onde vivo, as pessoas não precisam de músicos.

            O sonho/lembrança me despertou para outras coisas. Reflexões que existiam dentro de mim, mas também permaneciam adormecidas. Questionamentos que eu mesmo tentei suprimir. Quando comecei a pensar aquelas coisas, senti que minha mente iria dar um nó. Olhei para o relógio:

23:51

Um minuto desde que suspirei.

Tentei me lembrar o nome da música que eu tocava, mas fazia muito, muito tempo. Não conseguia. Mas me lembrava a melodia, que tentei cantarolar. Era linda. Mas o mais lindo era o movimento dos meus dedos tocando as teclas, produzindo som. Mágico.

            Tudo o que temos feito, em todo esse tempo, como raça humana, foi tentar melhorar as coisas. Foi tentar crescer. E crescemos. Avançamos em aspectos inimagináveis. Ninguém mais nascia, mas os que já nasceram e cresceram, eram imortais. Não conhecíamos o medo da morte, da doença, da miséria e das tragédias.

            Mas não conhecíamos o verdadeiro valor do que nos cercava, já que nunca tínhamos nada a perder.

            Quando me dei conta, tentei me ferir, somente para ver se ainda sentia alguma coisa.

            Mas não.

            Eu não conseguiria ferir um corpo como aquele. E não conseguia sentir dor, nem física, nem psicológica. Foi então que me dei conta e disse, em voz alta:

            — Nós mudamos.

            E essa era a única coisa que poderia, agora, me apavorar. 


29 comentários:

  1. Bah! Como está lindo, poético e doce. Parabéns!

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  2. Bella, que texto maravilhoso! A questão da memória, tão importante para a literatura, vista desta forma, especialmente em um embate com a Mudança... Incrível. Já estou MUITO ansiosa para ler a segunda parte e descobrir o que irá acontecer!

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    1. Muito obrigada, miga, fico muito feliz com seu comentário! Espero que você também goste das outras partes!

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  3. Adorei o texto, Bella, a leitura foi tão boa que não parei até terminar. Já tô ansiosa pra ler o restante!

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    1. Muito obrigada, Amanda! Me deixa muito feliz saber disso!

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  4. Seu conto é poesia. Interessante como ele veio com som. Uma música suave de piano tocou o tempo todo em minha me te enquanto eu lia. Vc fez mágica. Ansiosa pra ler a segunda parte.

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    1. Eu amei o seu comentário, Liliane! Fico muito feliz de ter te transmitido o que eu queria... Me sinto realizada!

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  5. Achei incrível o saudosismo angustiante do protagonista. Sentir falta daquilo que não lembra ao certo. O desenvolvimento ficou muito bom, quero muito ver para onde vamos daqui!

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    1. Muito obrigada! Espero que você goste das outras partes também!

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  6. Eu também amei, Bella ⚘ Super agradável e empolgante!!!! Louca para saber mais...kkkk Sou sua fã número um 😍😘😘😘😘😘

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  7. Este comentário foi removido pelo autor.

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  8. Que texto lindo, nostálgico!
    Consegui visualizar cada sentimento e cada toque do personagem!
    Parabéns!!!
    Ansiosa pela continuação!
    Luna Halder 🥰😘

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    1. Muito obrigada, Luna. Isso me deixa muito realizada e feliz!

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  9. Eita caramba. Que autora talentosa hein. Sou tecladista e me vi na pele da personagem. Parabéns Bellinha.

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    1. Muito obrigada! Fico feliz que tenha conseguido transmitir isso bem!

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  10. Será que vale a pena a imortalidade?
    Tema excelente.

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  11. Extremamente bem escrito, como sempre. Adorei as lembranças do pianista.

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  12. Bella, que primeira parte maravilhosa! Logo nos primeiros parágrafos, enquanto lia, fui formando as imagens em minha mente e preenchendo as lacunas dessa sociedade que você propôs e que apenas vislumbramos pela janela do narrador. Esperando a continuação para adentrar mais nesse mundo!

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    1. Amei seu comentário! Muito obrigada, espero que você goste das outras partes também. É muito importante para mim!

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  13. Será que algum dia acontecerá isso conosco?
    À imortalidade é um desejo que desafia a muitos. Talvez este seja o caminho...
    Muito bom...

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  14. Magnifico, uma escrita que transmite um sentimento de certa maneira atual, de uma sociedade robotizada pela ganancia, o medo da morte nos faz perder a vida e isso foi transmitido muito intensamente. Parabéns pelo belo trabalho Bella.

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    1. Muito obrigada! Fico feliz que tenha conseguido transmitir isso a você!

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  15. Me fez pensar se realmente vale a imortalidade, q normalmente é muito romantizada. E que descrição mais linda da lembrança do pianista qdo tocava. Adorei!

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  16. Suspirei ao final. Fiquei pensando que a partir do momento que se reconhece o inevitável da mudança do mundo, é possível reconhecer os nossos processos de mudanças com mais leveza, e quem sabe poder enxergar mais cores no mundo.

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